Bússola do Muito Mar

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Número de Ondas

domingo, 18 de fevereiro de 2018

ZONA DE PERECÍVEIS (124)


Rankings, Realidade & Excell

Aparentemente, a vozearia à volta dos rankings das escolas foi, desta feita, menor. A feira mediática parece ter-se cansado desse território e os tudólogos da pátria, à míngua de antena, encolheram os ombros. Como os pastéis de nata, dir-se-ia, os rankings acabam por enjoar – até os entusiastas ex-maoístas que, há décadas, ansiavam em lágrimas pela sua publicação. 
Lembro que em momento algum ministério, professores, direcções escolares e sindicatos desvalorizaram o tratamento sério, avisado e responsável dos dados resultantes de exames ou provas de aferição. A diferença estava em que essa análise, na opinião de quem estava – está - mesmo interessado no sucesso da Escola (sobretudo, no sucesso da Escola pública), deveria ser feita dentro do próprio sistema. Objectivo: encontrar estratégias para potenciar boas práticas ou corrigir falhas.
Já os arautos da exposição dos rankings viam na publicação ruidosa de classificações por escola a chave para a excelência deveniente: as escolas boas – maioritariamente associadas ao ensino privado – seriam reconhecidas e premiadas; as más – maioritariamente públicas – tornar-se-iam, por vergonha ou castigo, também boas ou desapareceriam. Na cave desta retórica, havia o ideal de uma Escola tendencialmente privada e, como acontece nos Estados Unidos da América, de uma desvalorização-residualização do ensino público, destinado apenas à população socialmente desfavorecida.
Quem estuda há muitos anos o fenómeno da educação sublinhou oportunamente, para escândalo dos entusiastas dos rankings, que países muito desenvolvidos haviam já experimentado essa prática e, depois, optado por tratar internamente os dados anuais relativos à avaliação dos seus alunos. Porquê? Porque entenderam que aquela exposição pública prejudicava mais do que beneficiava o sistema. Mais consideraram que os rankings eram, por natureza, falhos de rigor, injustos e contraproducentes, pois configuravam, na prática, a emergência de estigmas dificilmente reversíveis e a simplificação abusiva do mérito escolar e educativo das escolas.
Não me custa concordar com essa teoria: ao longo dos últimos anos, tenho assistido à substituição do estudo competente e produtivo dos resultados escolares por um ruído profundamente demagógico e politicamente enviesado. Cheguei a ler, em jornal de referência, um ex-maoísta a “explicar” que, com base nos rankings, as famílias iriam poder escolher as melhores escolas para os seus filhos!...
Já estive em escolas com bons resultados nos rankings – e eu era o mesmo professor que fui, depois, em outros estabelecimentos de ensino com piores resultados. Também já vi bons resultados num ano e menos bons no seguinte, tudo na mesma escola, com as mesmas práticas e os mesmos professores.
Há uns anos, a melhor aluna do 9.º ano da minha escola foi, no final do terceiro ciclo, prestar provas a um colégio privado para provar que merecia cursar aí o ensino secundário. Foi admitida. Esse colégio é dos que brilham, ano após ano, nos rankings. Na escola onde trabalho, atentai, admitimos todos os alunos, independentemente das qualidades intelectuais que revelem à partida.
Ainda uma pequena “anedota” (verdadeira): há uns dezasseis anos, a minha Filha e outros quatro ou cinco colegas do 12.º ano quiseram fazer exame nacional de Filosofia, de modo a poderem concorrer aos cursos universitários que almejavam. Ao longo do ano lectivo, essa disciplina não fizera parte do seu currículo, pelo que se auto-propuseram a exame. Eram, de modo geral, bons alunos e, graças ao estudo aturado (e à sua inteligência, claro), obtiveram excelentes classificações na prova. De tal resultou que o estabelecimento de ensino onde fizeram o 12.º ano ficou classificado, em termos de ranking, no top ten nacional, no que a Filosofia diz respeito. Tirando o facto de a escola (recordo) não ter essa disciplina no currículo, foi um momento de conspícua glória para aquela comunidade educativa.
No espírito mercantilista e futeboleiro dos rankings, talvez valesse a pena pensar nesta proposta, que ofereço de graça: cada escola - privada ou pública - escolheria os cinco melhores alunos para levar a exame (de Português, Matemática, etc.). Estou convencido de que, assim, a competição seria mais justa – e a percepção do sucesso escolar, tão artificiosa como a que actualmente se lê nas folhas de Excell, estender-se-ia enfim a todo o território português.

Coimbra, 11 de Fevereiro de 2018.
Joaquim Jorge Carvalho
[Uma versão (mais curta) desta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 15-02-2018. A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.contra-facção.blog.br.]

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

ZONA DE PERECÍVEIS (123)

Elogio da rotina burguesa

O relógio tem esta paradoxal qualidade de, representando embora o controlo dos homens sobre o Tempo, ser um permanente aviso sobre o humano Fim. Na verdade, o relógio marcha contra nós, ó tristes, imparável e impassível como aquela esfinge que Baudelaire inscreveu no seu poema “La beauté”.
Contra a morte, que remédio senão viver-ir vivendo, como disse o poeta Célan? Que remédio senão o amor, como disse o poeta O’Neill? Menos grave e bela que as propostas da filosofia ou da poesia, ainda sei de uma outra forma de fugir (ou fingir que se foge) da morte: o culto da amável rotina.
A rotina não nos salva do Fim, naturalmente. Mas, no intervalo das doenças (próprias e alheias) e dos desgostos (havidos ou iminentes), eu simpatizo com a regularidade repetida dos meus dias burgueses. A sistemática lida da nossa normalidade serena e honesta representa, talvez, uma grata ilusão de imortalidade, que é, à falta de melhor oferta, um querido regaço muito à mão de semear.
O burguês é feliz estando em casa – a ler, a ouvir música, a conversar, a telever futebol, ou simplesmente estando em casa sem mais verbos.
É feliz cumprimentando vizinhos e amigos, lembrando o Pai junto de contemporâneos seus (dele) de há cinquenta anos. É feliz discutindo futebol, política, mulheres, entre gargalhadas juvenis e sem devir obrigatório. É feliz separando o lixo, substituindo as lâmpadas domésticas, pagando as contas dentro do prazo, resolvendo um problema de canalização na cozinha (assim contrariando, aliás, uma fama de desajeitado que o persegue na família há décadas), descobrindo a causa do mau funcionamento do aspirador (um fusível fundido que mais ninguém detectara), repondo o stock de vinho para oferecer aos visitantes, mantendo q.b. a casa com pão, fruta, leite, água engarrafada, guardanapos, papel higiénico, batatas, azeite, óleo, cenouras, detergentes.
É feliz assistindo a séries cómicas, quiçá à lareira, estendido no sofá como um desempregado feliz (no intervalo da profissão, que religiosamente cumpre para ser digno do que lhe pagam).
É feliz a correr no Choupal, sobretudo quando não anda assustado com misteriosas dores no peito, não tem dívidas impagáveis e, para cúmulo destas maravilhosas juventudes momentâneas, há Sol na sua cidade.
É feliz quando a família está bem - isto é, normalzinha da silva, isto é, razoavelmente viva, isto é, razoavelmente sã. É feliz quando a mulher e a filha estão em casa consigo, tão eternamente como em 1989, já depois da tropa, durante as férias estivais, muito pobres e muitíssimo felizes, na mítica Praia de Mira.
O senhor Marx que me desculpe, mas a burguesia é um belo lugar para se estar antes da morte.

Vila Real, 03 de Fevereiro de 2019.
Joaquim Jorge Carvalho
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 08-02-2018. A imagem (de Calvin & Hobbes, do genial Watterson) foi colhida, com a devida vénia, na net.]

terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

ZONA DE PERECÍVEIS (122)



A observação como doença crónica

 Sonhei que um pintor famoso se cruzava comigo na rua e me oferecia um quadro. Vagamente, explicou-me que me vinha observando há algum tempo, e que, à minha custa, se comovera e rira já excessivamente. De comum, explicou-me, tínhamos a doença de sentir tanto e sempre, bem como a urgência, decerto doentia e patética, de nos exprimirmos abundantemente, como se precisássemos de confidenciar ao mundo o que profundamente vivíamos, para o mundo nos lamentar, nos consolar, nos perceber e, talvez, nos aceitar. 
O quadro estava cheio, sobretudo, de motivos marinhos. A expressão que me ocorreu foi a de “um aquário no mar”: água e peixes por todo o lado, mas também rochas, plantas, uma âncora ferrugenta, um navio sepultado em forma de vulto. E – aqui é que entrava verdadeiramente a senhora Dona Estranheza – pessoas: multidões à espera do autocarro, automóveis a passo de caracol (de caracol anfíbio, claro), agentes da polícia, vendedores de cautelas e de castanhas, pares de namorados trocando juras de amor em bolhas de ar, ambulâncias nervosas, familiares, amigos & conhecidos movimentando-se no sentido dos ponteiros do relógio, a minha Mãe levando a minha Filha à escola. 
O quadro era uma espécie de enxame de vida vária, vertiginosa, confusa, ruidosa, caótica. Fez-me lembrar, já depois de acordado, alguns episódios de febre por que passo às vezes e invariavelmente me acendem no cérebro uma avalanche infernal de rostos-objectos-acontecimentos a cem à hora. 
Mas onde estava eu ali, naquela voraz representação do (meu) mundo? Perguntei, então, por mim. O pintor apontou para uma extensíssima serpente, que – observado o panorama com maior atenção e mais apurado detalhe – começava no início da tela, ao canto esquerdo, e se estendia, em eles, esses e zês, até ao canto inferior direito. A serpente tinha uns olhos imensos (que a princípio me pareceram duas misteriosas medusas) e olhava, com absoluto espanto ou mortal medo, para cima. 
Perguntei-me por que razão a serpente (eu?) olhava para as mãos do pintor. Sem falar, ele retirou as suas mãos do quadro, e percebi que sob elas estava, até então tapado, o meu próprio rosto olhando para baixo. Isto é, para a serpente e para a vida dentro do aquário, em geral. 
Eu tinha muito mais para debater com o pintor, mas ele desapareceu-me – primeiro pelas sombras labirínticas do sonho, depois pelas esquinas palavrosas da sua gasosa evocação. 
O que ficou do que sonhei foi, portanto, aquela ideia de um aquário no mar comigo dentro e simultaneamente comigo a ver. Não é mau pecúlio, pois sonhos há que não nos deixam um cêntimo sequer do tesouro vivido (e vívido) por onde andámos. 
Dando-se o caso de, por estes dias, o cronista se interrogar sobre a missão do cronista, apeteceu-me pensar que o aquário representava talvez este homem de palavras com um pé no mundo e outro fora, no ofício de viver e reflectir acerca de quanto-como-para-por que se vive. 
Depois, como era Sábado, comprei o Expresso e fui lê-lo para a sala, inteirando-me confortavelmente das glórias e misérias deste planeta em que está (também) a casa arrendada onde leio e escrevo.

Coimbra, 20 de Janeiro de 2018. 
 Joaquim Jorge Carvalho
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 25-01-2018. A imagem (do grande Cesário, espécie de poeta-cronista), foi colhida na internet, com a devida vénia.]

segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

ZONA DE PERECÍVEIS (121)


Amizade, etc.

Um conhecido advogado dizia há dias, na televisão, que “os amigos são pessoas de quem gostamos sempre, apesar de as conhecermos bem”.
Não comungo desta noção de cheque em branco oferecido aos amigos. O que há no banco da amizade é um crédito realmente grande, imenso, mas não infinito. Sei muito bem que um amigo é um tesouro, e também eu creio que, em alguma medida, os laços da amizade são mais profundos e delicados que os da família. É costume dizer-se que a família não se escolhe, por existir um vínculo fatal entre nós e os do nosso sangue, ao invés do que se passa com os amigos, que somos lives de escolher, ou que – por actos, palavras e demais coincidências cósmicas - entram em algum momento nas nossas vidas, tornando-se companheiros & cúmplices da nossa circunstância, presumivelmente para sempre.
Ao contrário do que sucede no universo familiar, a que pertencemos de forma mais ou menos involuntária (ou ex-voluntária), a nossa rede de amigos é feita de matéria não exclusivamente emocional ou sentimental. Note-se: não pretendo reduzir o conceito de amizade a um mero contrato, baseado na pura Razão, mas tão-pouco consigo entender o fenómeno como um vínculo gasoso, desprovido de direitos e deveres. De regras. De ética.
Na ética da amizade, creio bem, os amigos não têm de estar obrigatoriamente de acordo uns com os outros. Por outro lado, não têm de conformar-se com tudo o que os amigos fazem, i.e., não têm de engolir passivamente eventuais provocações, ofensas, humilhações. Os amigos de verdade, ainda que tacitamente obrigados à maior compreensão, à maior paciência e à maior tolerância para com os seus amigos, têm também o dever de se zangar perante comportamentos graves e, à luz da própria amizade, perigosos. Falo sobretudo de erros crassos e – pior ainda – conscientes, nomeadamente quando os amigos ignoram os avisos, os conselhos, os pedidos dos amigos.
Mais: os amigos alvo da ira circunstancial dos amigos têm a obrigação, nesse momento, de humildemente se interrogarem sobre os reparos que recebem. Pode aqui suceder que alguns, confundindo orgulho com teimosia, se recusem a admitir quaisquer responsabilidades. E, do outro lado, suceder que se viaje da indignação primária à zanga muitíssimo séria. No pior dos casos, chocarão dois comboios de irredutibilidade, uma triste metáfora para o triste acidente que é uma amizade ser interrompida. 
A idade ensinou-me que ninguém é dono de ninguém, em matéria de amizade ou amor (sendo aquela uma versão talvez menos romântica deste). Aliás, julgo que não possuímos amigos, não detemos amigos – temos amigos, isso sim, no sentido (mui puro) de sermos beneficiários da amizade de alguém e de alguém reciprocamente merecer a nossa estima.
Não se pode magoar gratuitamente um amigo, claro. Mas amizade alguma nos impede de dizer a um amigo que está a ser pouco razoável, se ele estiver a ser pouco razoável. Ou injusto, se ele estiver a ser injusto. Ou a não ser amigo, se ele estiver a não ser amigo.
O pior de tudo é ser mesmo tão terrível a gente zangar-se com um amigo. Lembro-me sempre daquele diálogo (lido sei lá onde, sei lá quando) entre dois espectadores de uma cena de pancadaria na rua, entre vizinhos.
- São conhecidos?
- Pior. São amigos.

Vila Real, 20 de Janeiro de 2018.
Joaquim Jorge Carvalho
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 26-01-2018. A ilustração (com a personagem Calvin, do grande Bill Watterson) foi colhida, com a devida vénia, em http:www.psicoachbh.com.br.]



quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

ZONA DE PERECÍVEIS (120)



Lennon no dentista

Life happens while we’re making other plans.” [A vida acontece enquanto estamos a fazer outros planos.] Li a frase de John Lennon pela primeira vez numa revista qualquer, provavelmente antiga, na sala de espera de um dentista, há já muitos anos. Discretamente, recortei o canto da página onde estava esta pérola e guardei-o no bolso da camisa, sobre o coração. É isso que fazemos com todas as revistas, com todos os jornais e, de certo modo, com todos os livros que lemos: guardamos (ainda que de forma menos bárbara e não necessariamente física) o que de mais interessante cada uma destas fontes escritas tenha para nos oferecer.
Esta frase tem sido uma espécie de mote constante para (e sobre) a minha vida. Não, sublinho, como justificação pateta para os problemas do dia-a-dia, porque eu creio firmemente no livre arbítrio e na geral noção de que somos responsáveis por 90% do que nos sucede. Mas também penso que o Acaso (dito, à maneira grega ou fadista, o Destino) tem o seu papel na caminhada de cada indivíduo ou de cada sociedade.
Por exemplo, a coincidência de ter encontrado o mui venerando professor Silveira, de Português, aí pelo 9.º ano de escolaridade, e de ele me ter dito “Se queres ser rico, vai para ciências; se queres seguir a tua vocação, segue a literatura”, e de eu me ter tornado docente também.
Ou a coincidência de, por engano nas filas de matrícula, ter escolhido um curso universitário que não era exactamente o que tinha em mente, e de me ter depois apaixonado pelos programas, pelas matérias e pelos professores, nem sequer equacionando, de aí em diante, qualquer mudança que deles me afastasse.
Ou a coincidência de, numa aula de Cultura Francesa, em horário diferente do habitual, ter conhecido a mulher da minha vida e de ela ter sentido por mim (creio) uma electricidade semelhante, encontro de que resultou, até ver, 35 anos de invulgar felicidade, uma única-Filha-única e uma dívida bancária a 14 anos ainda de ser paga.
Ou a coincidência de um colega de futebol se ter tornado no meu maior Amigo e depois cunhado, e depois – por traiçoeiramente ter morrido de cancro – uma Saudade do tamanho do mundo.
Ou a coincidência de, por razões profissionais, ter saído, há mais de 20 anos, de Coimbra para Trás-os-Montes, acompanhando a esposa, e de aí ter conhecido lugares e gente de revelantíssima importância, que passaram a fazer parte do que sou e sem os quais hoje nem sequer me imagino.
Ou a coincidência de, em menino, ter sido tocado pelos romances e contos de Júlio Dinis, e de uns trinta anos depois ter voltado àquele mistério literário para, como quem cumpre um dever de gratidão, lhe dedicar um doutoramento trabalhoso, extenso e honesto.
Ou a coincidência de ser conterrâneo e Amigo do jornalista-escritor Daniel Abrunheiro, e de este me ter sugerido ao director de O Ribatejo para cronicar, e de por isso estar há 120 crónicas em convívio (perecível) com os seus leitores.
Sim, a vida acontece enquanto andamos a fazer outros planos. Por exemplo, estava eu a terminar este texto e tocou o telefone: era a minha Filha a dar-me boas notícias sobre o seu trabalho e a sua carreira. Logo agora que eu procurava uma frase para, nesta crónica, falar da noção de felicidade-a-haver com que procuro acompanhar cada episódio da vida, por mais desconcertante que ele se me afigure. Deve ser coincidência.

Ribeira de Pena, 14 de Janeiro de 2018.
Joaquim Jorge Carvalho
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 18 de janeiro de 2018. A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.divadaregina.blogspot.pt.]

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

ZONA DE PERECÍVEIS (119)



À brás

1. Conheço e estimo, há muito tempo, o bacalhau à brás. A vida doméstica ensinou-me que, para além do valor gustativo, este prato tem a virtude de se cozinhar de modo maravilhosamente simples: bacalhau desfiado (pré-cozido ou não) e misturado, no tempo certo, com caldo de gemas e claras, batata palha, tudo a desaguar numa frigideira onde o azeite e a cebola estão já em alegre consubstanciação. Eu próprio já sou capaz de o cozinhar, um pouco menos bem do que a minha mulher, mas sem prejuízo grave do paladar.
2. Mais recentemente, soube que o conceito “à brás” é adaptável a outros ingredientes-base, como o frango, o atum, até a pescada. A minha irmã diz que é uma maneira deliciosa de se aproveitar a comida sobrante, fenómeno de poupança que agradará decerto também a Deus e aos ambientalistas (inimigos conspícuos do desperdício).
3. Ao longo da minha existência escrevedora, não poucas vezes pratiquei também esta filosofia à brás, muito particularmente na poesia e na crónica. No fundo, tal acontece quando a escrita parte de uma matéria-prima chamada realidade, bem desfiadinha como tem de ser. Acrescenta-se-lhe, a seu tempo, a calda de gemas e claras do nosso olhar. Neste regaço alegórico, talvez pudéssemos chamar batata palha às palavras que se misturam ao ingrediente básico. O tempero corresponderá talvez a aspectos atinentes ao estilo do cozinheiro – vocabulário, sintaxe, elementos de retórica (atenção: não exagerar nos adjectivos ou nos advérbios).
4. Esta mesma crónica que vos deposito nas mãos era para ser exemplarmente “à brás”. Tinha a intenção de vos oferecer alguns pedacinhos do meu quotidiano mais recente – a minha Mãe perguntando-me a sua própria idade; o Facebook a lembrar-me do aniversário de um Amigo já falecido e convidando-me a celebrar com ele a data festiva; uma ex-aluna, à porta de um hipermercado, chorando (juro) com saudades das nossas aulas de há vinte e tal anos; o Natal visto, a partir de certa idade, como um presépio de ausências; etc.
5. Mas o desvio preambular da crónica, com que gastei talvez demasiados parágrafos, não me deixa espaço senão para uma notinha mais. É preciso, contudo, que olheis para ela à luz dos princípios gastronómicos e de arte poética acima enunciados.
6. No penúltimo dia de 2017, fui com a minha Mãe às compras. Na hora de pagar, brinquei com a moça responsável pela caixa registadora. Apontando para a minha amadíssima progenitora, perguntei: “Acha que ainda posso trocar esta senhora por um modelo mais novo ou já passou o prazo?
A moça, conquanto sorrisse (por saber muito bem que eu brincava), respondeu-me num tom muito grave: “Não se trocam mães. E elas nunca estão fora de prazo.
Eu dei-lhe logo razão, claro, e guardei o episódio para, um dia, lhe acrescentar as gemas e as claras do meu olhar, mais a batata palha das palavras e alguns condimentos à minha escolha. 
Atenção: a realidade à brás não tem de ser servida fria.

Vila Real, 06 de Janeiro de 2018.
Joaquim Jorge Carvalho
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 11-01-2018. A imagem foi colhida, com a devida vénia, na net.]

quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

ZONA DE PERECÍVEIS (118)


Epifania para Ano Novo

Quando a crónica se deixa cair na esparrela da catequese paternalista, o cronista corre os riscos concomitantes: o mortal ridículo, o imbecil moralismo e a provável ineficácia. Mesmo que o objectivo seja virtuoso, pois de boas intenções está a (má) literatura cheia. 
Não obstante, atrevo-me a uma incursão por este domínio delicado, ó pacientes leitores. É que se cumpriu mais um aniversário da morte de um familiar próximo, e a efeméride teima em cruzar-se com esta data de fim de ano. O meu saudoso Z.M. andou pelo inferno de um vício tenebroso, o alcoolismo, perambulando os pântanos da indigência mais triste, subindo depois a ladeira insegura da esperança e chegando finalmente à praia apetecida da salvação. É muito difícil não me lembrar deste monumento querido quando quero falar de ano novo e de mudança.
O Z.M. começou a beber ainda muito jovem. A família e os amigos lidaram com o fenómeno (normalmente divertido) de forma despreocupada. Já jovem adulto, fez a tropa, começou a trabalhar na construção civil, casou-se e teve uma filha. Era um homem bem parecido, inteligente, com sentido de humor, amante do convívio e da festa. A bebida continuou a fazer parte do seu quotidiano, infelizmente sem a graça e o carácter inócuo dos primeiros tempos: a qualidade do trabalho piorou, as relações sociais deterioraram-se, o casamento ruiu, a sua saúde e o seu aspecto foram-se degradando miseravelmente. De vez em quando, dávamos por ele caído num qualquer canto junto à tasca terminal de ocasião e tínhamos de o carregar para casa como um fardo trágico.
Falei muitas vezes com ele. Recordava-lhe o que ele era versus o que ele poderia ser (o que ele tinha a obrigação de ser), o trabalho precário, as qualidades que desperdiçava, as mulheres bonitas que já não olhavam para ele, a quase impossibilidade de participar na vida da filha, a angústia da família e dos amigos, a falta que ele me fazia na sua versão alegre, lúcida, sã. Ele respondia-me, invariavelmente: “Eu sei. Mas isto vai mudar. Juro-te!
Um dia, muito mais tarde que cedo, mudou realmente. Ao anoitecer, quando cambaleava entre a tasca e a sua casa, caiu inanimado. Veio a ambulância, o internamento, os exames – e a sentença definitiva do médico: “Outra destas e morre.
O Z.M. decidiu que queria viver. Cortou com a bebida de aí em diante. (Atenção, não diminuiu o consumo: cortou mesmo, radicalmente, com o mal.) Voltou a trabalhar, recuperou os hábitos de higiene e uma saudável vaidade pessoal: tratou dos dentes, reconstruiu o guarda-roupa, passou a ajudar a filha (com a sua presença e o seu amor, claro, mas também com algum auxílio económico), tirou a carta de condução (à primeira), comprou um carrito, arranjou uma namorada, regressou ao convívio limpo e alegre da família e dos amigos. A ressurreição foi traída, uns três anos depois, pela puta da Morte, que veio cobrar oncologicamente os excessos da vida anterior. Mas a imagem que dele ficou na nossa memória foi a de um Homem que saiu do inferno e veio cá acima gritar-nos que é possível mudar, e que o milagre de nos salvarmos está essencialmente em cada um de nós.
Quando me calha saber de um ou outro conhecido caído nas malhas do vício (medicamentos, álcool, jogo, droga), lembro-me sempre do Z.M., que me dizia “Isto vai mudar, Juro.” – e que um dia deixou mesmo de (se) adiar o regresso à felicidade.
Eis o que eu vos queria dizer: que cada um encontre a digna epifania para a sua própria circunstância. Por si e por quantos o estimam e amam. Tom de catequese, ó leitores? Desculpai-mo, se puderdes. Mas não me ocorre melhor forma que esta para vos/nos desejar Feliz Ano Novo.

Coimbra, 31 de Dezembro de 2017.
Joaquim Jorge Carvalho
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 04-12-2018. A ilustração que o acompanha foi colhida, com a devida vénia, na net (sem – até ver - referência autoral conhecida).]

sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

ZONA DE PERECÍVEIS (117)


José, Maria e o miúdo

O nome de meu Pai era José. O nome de minha Mãe é Maria. Se vos disser que a minha Mãe é uma santa, podereis pensar que Jesus fala pela minha boca e que a crónica glosa a Sagrada Família, não é? Mas o meu José era bate-chapas, pouco sabia de carpintaria e nem um exército de anjos o convenceria de uma concepção à base de Espírito Santo. Era apenas um homem – e eu, o seu segundo filho, sou esta imperfeita criação, à sua imagem e semelhança (na fisionomia, no olhar malandro, no jeito para jogar à bola e no amor pela vida em geral). 
O meu Pai foi, por muitos anos, a figura tutelar dos natais familiares. Ligava quase nada à religião, mas tinha por Deus, pelos santos e pelos rituais do cristianismo um profundíssimo – quase supersticioso – respeito.
Ao contrário do que sucedia com outras datas também importantes, a esta ele nunca faltava e não me lembro sequer de um atraso seu à ceia de 24 de Dezembro. Apreciador da boa comida (bem regada, para minha aflição), ele próprio supervisionava e patrocinava a qualidade do bacalhau, dos legumes e do vinho. Esse lado (não exactamente religioso, antes burguês) compreendia ainda uma ida, com a minha Mãe, à baixa coimbrinha, na própria tarde desse dia, para comprar as prendas dos três (depois, quatro) filhos do casal. E era singular como um homem que passava a vida a resmungar pelas contas - da luz, da água, do gás, da renda de casa, da mercearia – tão mansamente abria os cordões à bolsa para aquela generosidade anual.
Das mais amadas prendas que eu e o meu irmão mais velho recebemos, naquele tempo menino, destaco dois carrinhos telecomandados, que cada um de nós conduzia através de um aparelho ligado a um cabo de, talvez, metro e meio. Tinham só uma velocidade, mas eram enormes, vistosos, andavam para a frente e para trás, e viravam à esquerda e à direita. Entretivemo-nos com eles durante meses, até às avarias terminais (ainda hoje choradas pelos petizes que fomos).
No Natal seguinte, eu e o meu irmão quisemos uma repetição daquela oferta. O nosso Pai ficou pensativo, porque o dinheiro abundara menos nesse ano civil. Mas não deixou de ir com a nossa Mãe à baixa coimbrinha, quem sabe à procura de algum milagre em forma de pechincha.
Na hora de abrirmos os presentes, descobrimos novos carros telecomandados. Contudo, desta feita, eram mais pequenos, mais rudimentares, com o cabo mais curto, e limitavam-se a andar para a frente e para trás, sem a função de virar à esquerda ou à direita. Eu e o meu irmão gememos em coro o nosso descontentamento. E nunca esquecerei a tristeza (talvez a angústia) de meu Pai, interrogando a minha Mãe: “Eu não te dizia?...
Agora, é outra vez dia de ele nunca mais estar connosco (e de eu nunca mais ser completamente menino). Tenho saudades dele e de nós todos quando ele estava. Saudades, afinal, dessas prendas verdadeiras que tão incompletamente percebi no tempo certo.
Feliz Natal.

Vila Real, 17 de Dezembro de 2017.
Joaquim Jorge Carvalho
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 21-12-2017. A foto recorda a Família - da direita para a esquerda, a Mãe, a Fátima, eu, o Tó e o Pai (falta o Nelo-por-nascer).]

sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

ZONA DE PERECÍVEIS (116)



Vida(s) de cão

O cronista alberga, por definição, o pavor de ser mal interpretado. No meu caso, o que temo não é que discordem de quanto diga, é sim que não percebam o que verdadeiramente quero dizer. Preâmbulo feito, sabei que a crónica de hoje fala em cães, mas visa sobretudo falar de pessoas.
Já tive cães na família. Parte das alegrias e dos lutos da minha meninice compreendem a espécie canina. Depois, casado e com descendência, convivi com uma cadelinha chamada Dara, motivo de mil aflições, arrelias e prejuízos, mas igualmente responsável por instantes de pura felicidade e de irracionais risotas.
O que me arrependi, neste segundo caso, da opção de trazer para casa o animal! A minha mulher e eu quisemos sobretudo satisfazer um pedido da nossa Filha, amenizando o remorso de, por razões profissionais, nos termos mudado de Coimbra para Trás-os-Montes e obrigado a miúda a interromper rotinas, amizades, expectativas, conforto. O problema veio depois: a casa que arrendámos era exígua para a energia (ilimitada) do ser recém-chegado; o nosso tempo livre era escasso para quem queria tanto a nossa companhia. Em suma: a Dara deveio infeliz e, enquanto sofria de solidão, incomodava os vizinhos com uivos e latidos incessantes. Durante a minha infância, os animais domésticos tinham espaço para viver (não digo, notai, sobreviver; digo viver). Recordo um pátio grande, infinitos arbustos, arvoredo largo, e gente sempre disponível (i.e., sempre presente) para um passeio, uma festinha, uma reprimenda educativa.
Voltando ao tempo da Dara, faço questão de sublinhar o nosso cuidado em, tanto quanto conseguíamos, evitar que a cadela causasse danos a vizinhos e humanidade em geral: se ela sujasse ou estragasse, nós limpávamos e reparávamos; se ela rosnasse ou ladrasse aos transeuntes, nós intervínhamos, serenando-a ou afastando-a das pessoas.
Hoje, devinda memória a hiperactiva cadela que, por 13 anos, amámos como família, não temos cães em casa. Mais: não queremos ter cães em casa. Aprendemos a lição: para sanidade e real bem-estar de humanos e de animais, é preciso que a possibilidade de convivência compreenda, à partida, condições dignas. Continuo a ouvir com frequência a pergunta: “Não queres ter um cão?” Mas a própria ideia de “ter” um animal me parece já um erro, pela redução do ser vivo à condição de propriedade.
Lamento as gentes e os cães da minha tão estreita rua, estes pela falta de espaço, liberdade e companhia, aqueles pela – adivinhada - pressão a que estão sujeitos (as tropelias dos canídeos, o barulho, os fatais excrementos pela casa, pelas escadas, pelas ruas). Vidas, ambas, de cão.
Talvez os leitores me não perdoem a franqueza, mas eu creio que, por muito amor e compreensão que haja pelos admiráveis cães, é hoje impossível ignorar o flagelo representado pelas planícies de porcaria em que se tornaram os passeios de tantas urbes. Uma minoria recolhe, em saquinhos civilizados, a escatologia dos famosos melhores amigos. A maioria deixa que fezes e mijo se espalhem, sem regra, por passeios, aparcamentos ou pátios.
Já vi uma senhora à espera que o seu (enorme) cão se aliviasse à porta do prédio coimbrinha onde vivo. Farto de fingir que estava tudo bem, garanti-lhe que, logo que pudesse, não deixaria de passar com outro cão à sua própria porta - para lhe devolver a urina canina ali deixada. Virou-me as costas, murmurando (talvez) que eu era um desses crápulas que detestam animais.

Vila Real, 10 de Dezembro de 2017.
Joaquim Jorge Carvalho
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 14-12-2017. A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.sobral24horas.com.]

sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

ZONA DE PERECÍVEIS (115)


Três desejos (ou a felicidade)

Grupo IV do teste de Português, oitavo ano de escolaridade. Domínio: escrita. Tarefa: elaboração de um texto narrativo, partindo de uma situação fantástica (no sentido genológico do termo) – um mago, para premiar certo gesto generoso do narrador participante, oferece-se para satisfazer três desejos à sua (dele, narrador) escolha.
Os alunos enveredam por múltiplas-díspares hipóteses. Há quem recuse os desejos porque a bondade, se for mesmo bondade, é gratuita e não tem de ser paga. Há quem peça o venal dinheiro, a fundamental saúde, a abstrusa fortuna. E há raparigas e rapazes que pedem a imortalidade dos pais ou dos avós, a cura para o cancro, amigos novos, uma família “como deve ser” (sic), uma pastelaria na terra natal.
E eu bendigo esta tarefa da escrita, que tão naturalmente convocou nos alunos a reflexão filosófica sobre a magna e movediça questão da felicidade. Assombra-me a preclaridade tão precoce dos jovens aprendentes neste delicado ofício de pensar na sorte e no destino a haver.
Eu levei muitos anos a perceber que ser feliz era muito mais do que ser rico, ter sucesso ou fama ou poder. Por desde sempre viver vizinho dos amigos, dos livros, da família, dos filmes, do futebol, das praias, do amor – andei enganosamente à procura de coisas outras que significassem, julgava eu, a realização pessoal completa. Naquela ignorância, acreditava que o importante era não o que tinha, mas o que não tinha. Até saber a verdade evidente e grande como o mar: que a felicidade é um processo e são instantes; que estar bem se faz de mui simples horas, mui mínimas circunstâncias; que nunca se é feliz, antes se está.
Para alguns dos meus alunos, ser feliz é o avô não morrer de cancro. É testemunhar o milagre da amizade, algures na rua ou na escola. É ter pais que se dão bem e tratam os filhos dignamente. É ter uma pastelaria na sua terra (isto é, um trabalho que os salve do exílio). Coisas pequeninas e simples. Coisas, atentai bem, afinal maravilhosas e raras – como, já agora, isto de eu-cronista cronicar e ser lido (pois que lerem-me é um direito e eu ser lido é um privilégio).
Ora, a terminar, aqui ficam, os meus próprios três desejos, já em antecipação natalina: saúde para o cronista; saúde para os leitores; saúde para estas perecíveis crónicas, que aspiram a ser, no entretanto de (co)existirmos, um saudável território de encontro.

Coimbra, 30 de Novembro de 2017.
Joaquim Jorge Carvalho
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 07 de Dezembro de 2017. A imagem (do inesquecível filme Cinema Paraíso, de Giuseppe Tornatore, foi colhida, com a devida vénia, em http://www.magazine-hd.com.]

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

ZONA DE PERECÍVEIS (114)



Caça aos professores


Não cessa de me espantar a sanha, mal disfarçada ou brutalmente ostensiva, que os tudólogos da pátria demonstram quando falam de professores.
Declaração de interesses: eu sou professor (“dessa raça”, como disse, na televisão, uma obesa excelência cheia de nada). Nem sempre adiro às greves marcadas pelos sindicatos, mas sou sindicalizado desde que abracei a profissão. É minha convicção que, depois de ouvirem-lerem o que se disse-escreveu contra os docentes, muitos dos que não aderiram à greve terão ficado com vontade de endurecer a luta.
A greve do passado dia 15 de Novembro foi pretexto para, em jornais e revistas, na rádio e na televisão, nas redes sociais e nas tascas e Cafés do país, as línguas viperinas atacarem os docentes, os sindicatos e os partidos que – ó escândalo dos escândalos! – apoiaram o protesto.
Para quem está na profissão com a paixão e o profissionalismo inerentes ao ofício, dói horrores ver-ouvir-ler tanto disparate opinativo, tanta ignorância gratuita e tanto (misterioso) ódio. Interrogo-me, em particular, sobre as razões que levam políticos e comentadores a nutrir este indisfarçado desprezo por quem fez do ensino a sua vida. Que traumas terão estas pessoas coleccionado, ao longo da existência, para agora, com tão pouca gratidão e tão fraca gramática, espumarem ressentimentos e falácias pelo palco mediático?
Entre outros clichês, dizem que os professores não têm avaliação. É mentira. Asseguram que os professores progridem sempre, sem quaisquer obstáculos. É mentira. Garantem que os sindicatos conseguem sempre quanto reivindicam. É mentira. Dizem que não é aceitável a quase totalidade dos professores obter uma classificação positiva para o seu desempenho (“Bom”). Atentai, por favor: quando vamos a um restaurante e somos servidos, podemos encontrar um empregado mais rápido, outro mais simpático, outro mais diligente, outro divertido – mas o normal será que o serviço fundamental seja cumprido, no matter what, não é verdade? É isso que se passa também nas escolas, nos hospitais, nas repartições públicas, nas papelarias, nas oficinas. (E quando não é assim, temos o direito e o dever de reclamar.)
Está tudo bem no estatuto da carreira docente? Creio que não. Defendo, por exemplo, a necessidade de se repensar a carreira, nomeadamente com a valorização salarial dos que estão na base do sistema. Ao contrário dos militares, cujas maiores patentes consubstanciam, de modo geral, maiores competências e responsabilidades, um profissional em início de carreira pode já exercer a maioria das funções atinentes ao professorado (docência, direcção de turma, coordenação de departamento, dinamização de projectos, etc.). Também defendo (e isto é matéria polémica entre os meus colegas) que, quando os candidatos a determinado escalão são em número superior ao das vagas disponíveis, haja exames escritos versando conhecimentos científicos e pedagógicos (talvez organizados pela universidade) que ditem quem pode ou não progredir. Bem sei que este crivo não é perfeito, mas salvar-nos-ia da venenosa desconfiança sobre eventuais favorecimentos pessoais.
A terminar: tenho um grande orgulho na minha profissão. Há séculos que os professores resistem ao desprezo e ao ódio de brutos e de ingratos. Mas o trabalho docente é uma espécie de caravana que, apesar de tudo, lá vai passando, enquanto a ignorância ladra.

Coimbra, 23 de Novembro de 2017.
Joaquim Jorge Carvalho
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 30-10-2017. A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://pixabay.com.]

sexta-feira, 24 de novembro de 2017

5 Quadras & 1 Sextilha (tudo por amor)

  


O meu amor é concreto, literal
Terreno e corpóreo. E tem
Cheiro, pele macia, algum sinal
Um certo paladar que sabe bem.

Não posso descrevê-lo por figura
De estilo esquisita, burilada:
O meu amor não quer senão ternura
E ri-se da paixão metrificada.

Ai, o meu amor é tão moderno!
Por exemplo, eu constipo-me amiúde
E adiamos beijos no Inverno
Por puros motivos de saúde.

Amo em meu amor quanto ele tem:
O olhar sereno-doce, ou a voz rouca
Gosto de sentir a sua boca
Na minha, sem saber qual é de quem.

Nunca lhe falo de eterna paixão
Por ser algo abstracto o sentimento;
Amo o meu amor neste momento
Como é de quem ama obrigação.

Com o meu amor, vou por aí
Simplesmente feliz. E se houvesse
Literatura que dissesse a alegria
De estar fisicamente junto a si
(Pode haver, mas nunca vi)
Eu, meu amor, comprá-la-ia.

Cabeceiras de Basto, 26 de Janeiro de 2017.
Joaquim Jorge Carvalho
Participei, com este poema, no Concurso de Textos de Amor Manuel António Pina – 2017, uma organização do Museu Nacional de Imprensa. O júri foi constituído por Fernando Pinto do Amaral (Director do Plano Nacional de Leitura), José Luís Pires de Laranjeira (Professor da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra), Luísa Marinho Antunes Paolinelli (Professora da Universidade da Madeira) e Luís Humberto Marcos (Director do Museu). No dia 18-11-2017, tive a honra de receber uma simpática menção honrosa e de conhecer Ana Pina e Sara Pina, as duas filhas do grande - e para sempre vivo - Manuel António Pina. Nota importante: retirei, com a devida vénia, estas fotos da página de Facebook do Museu Nacional de Imprensa. Numa delas, estou com uma formosa fadista (infelizmente, não consigo recordar-me do seu nome), de cujas mãos recebi o meu diploma. Na outra, vemos Ana Pina, Sara Pina, Luís Humberto Marcos e o Professor Pires de Laranjeira.]

ZONA DE PERECÍVEIS (113)



Elogio do aforismo

- Lembro-me de, em menino, estar febril, vomitando aos soluços, já sem forças para me queixar ou pedir socorro. Invariavelmente, era a minha Mãe quem operava o milagre do consolo e da esperança. Estava ali, omnipresente como Deus, a temperar de amor o sofrimento mais negro, colocando as suas mãos sobre a minha testa, amparando-me a cabeça.
- Mãe é Mãe.
- Sim, mas o que digo aqui é mais do que o teu provérbio diz. Sabes, o tempo deu entretanto a volta, e acontece-me agora, por vezes, ter a minha Mãe com febre e vómitos, sem forças já para se queixar ou pedir socorro. Tomo, nessas ocasiões, as suas mãos nas minhas, como se ela fosse uma menina em apuros, e eu fosse, quiçá, o seu Pai, e faço-lhe festinhas na cabeça, ou seguro a sua testa enquanto lhe sucedem os arrancos de estômago.
- Filho és, Pai serás. E amor com amor se paga.
- Pois, mas creio que o fenómeno não cabe em simples ditados populares. Vê que os mistérios da vida são demasiado complexos para tão pobre literatura. Há na nossa existência aspectos insondáveis à luz dessa linguagem tão rudimentar. Estou a lembrar-me do desvalor que até o maior dos lingrinhas atribui à própria vida em comparação com a de um ente visceralmente amado. Eu e a minha Filha, por exemplo. Tenho de perder conforto para ela estar bem? Perco-o, sem hesitações. Tenho de não dormir para ela poder descansar? Não durmo, naturalmente. Tenho de morrer para ela viver? Morro, claro.
- Amor, a quanto obrigas! E quem tem coragem, tem vantagem.
- É verdade, mas não é decerto apenas disso que se trata. Há uma espécie de superior dimensão em tudo quanto envolve o Amor. É, estou convencido, o maior enigma de todos os tempos e de todos os lugares. Que força é esta, caramba? De onde vêm tantos (infinitos) volts para tal luz? De que nascente surgem as inestancáveis lágrimas pela perda de certa amada gente? De que droga deriva tamanho ânimo, que nos resgata dos pântanos mais traiçoeiros e nos impele às subidas mais impossíveis, nos torna heróis semelhantes aos de mitos ou de banda desenhada, nos garante a resistência a todas as provações?
- Diz-se que a fé move montanhas.
- Pois, mas deve ser mais do que isso. Já to lembrei: um mero aforismo não pode ser capaz de dizer quanto te venho aqui dizendo.
- Os provérbios são a voz do povo.
- Serão, talvez, mas tudo quanto aqui te trago, amigo, precisa de uma linguagem maior. De uma linguagem (estava a ver se evitava este adjectivo) divina.
- A voz do povo é a voz de Deus.

Coimbra, 19 de Novembro de 2017.
Joaquim Jorge Carvalho
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 23-11-2017. A imagem foi colhida, com a devida vénia, em https://laisladesiltola.es.]

domingo, 19 de novembro de 2017

ZONA DE PERECÍVEIS (112)



A um jovem professor

O filho de um amigo, estudante do 7.º ano de escolaridade numa escola em Coimbra, confidencia-me o seu gosto pelo estudo, sobretudo pela literatura. Adivinho que será bom aluno, em particular a Português. Ele confirma, mas obtempera: “Não vou ter nível 5. Vou ter 4.” Pergunto: “Porquê?” E ele responde: “A professora não dá nível 5 no primeiro período. Tem medo de que os alunos desçam no segundo…
Conheço há muito esta “filosofia” (e as aspas sou eu a rir-me tristemente.) Tenho falado bastante sobre o fenómeno, em contextos formais ou informais, e desconfio de que numerosos colegas não têm já paciência para aturar a minha indignação. Esta opção por atribuir nível 4 a alunos que mereceriam 5, à luz dos critérios definidos, não é apenas ilegal – é pouco inteligente.
Costumo trazer à discussão o programa de Português, dividido geralmente em três macro-conteúdos: texto narrativo, texto dramático e texto poético (claro que estou a resumir, por óbvias razões de economia enunciatória). Imagine-se que, no primeiro período lectivo, enquanto estudava a narrativa, o aluno estava “nas suas sete quintas”, participando activamente nas aulas, obtendo excelentes resultados nos testes, cumprindo – com denodo, entusiasmo e brilho – as suas tarefas. O docente, por capricho pessoal, recusa-lhe o nível máximo. Chega o segundo período: o aluno, para além de (quem sabe?) descorçoado com aquele nível 4, vem a revelar-se menos bom no estudo do texto dramático, seja porque lhe desagrada esse modo literário (ou a escolha de autores obras para o estudo da matéria), seja simplesmente porque está menos focado nos deveres escolares durante aqueles meses de Janeiro-Fevereiro-Março, eventualmente passados a curtir desgostos amorosos ou desportivos. O professor volta a atribuir-lhe o nível 4, senão o 3. E dirá, imagino eu, com pacóvia assertividade: “Eu não dizia? Olha se eu lhe tivesse dado o 5…
Ora, a putativa conclusão do putativo docente é pouco séria, desculpai-me a franqueza. Se o aluno, após ter obtido nível 5 no primeiro período, tivesse registado um menor rendimento no decurso do segundo, que problema haveria em propor, nesse caso, a descida do nível 5 para o nível 4 (ou mesmo o 3)? Problema, de facto, é conseguir “devolver” ao aluno o nível merecido no primeiro período, se a criança ou jovem vítima desse “roubo” não mais repetir, ao longo do ano escolar, a excelência do rendimento inicial.
Creio que, em muitas circunstâncias, bastaria aos professores a generosidade (i.e., a humildade) de ver cada situação através dos olhos dos seus alunos, no sentido de bem aferir dos prejuízos ou dos ganhos pedagógico-pessoais das decisões tomadas. Atrevo-me a dizer que a maioria dos meus colegas tem esse cuidado (e ainda bem).
Quando, em 1985, iniciei a carreira de professor, disse aos alunos, logo ao primeiro dia, na apresentação, que contava já com dezasseis anos de experiência. O meu público riu-se, divertido, como se aquela afirmação fosse uma piada. Pois como poderia alguém tão novo (com vinte e dois aninhos cheios de frescura e acne) ter já dezasseis anos de experiência?
Expliquei-lhes, cordialmente, que estava a contabilizar os meus anos “do outro lado”, como estudante, testemunha (como eles) das melhores práticas e das piores barbaridades. O velho professor que sou hoje tem um recado para o jovem professor que fui em 1985: “Tinhas razão, pá.”

Vila Real, 11 de Novembro de 2017.
Joaquim Jorge Carvalho
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 16-11-2017. A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.construirnoticias.com.br.]

terça-feira, 14 de novembro de 2017

ZONA DE PERECÍVEIS (111)


A ilha dos tesouros

Ando a telever, com fidelidade canina, uma série genericamente intitulada “A Ilha”, que passa na Sic Radical e vai já na 2ª série. Em boa verdade, não obstante a aparência de documentário, trata-se de um “reality show”, visto que os protagonistas são cidadãos britânicos, tão comuns como eu e os meus caros leitores, ocupados – todos – com a questão da sobrevivência em contextos difíceis.
A produção do programa leva alguns indivíduos (homens, num dos casos; mulheres, noutro) para uma ilha do Pacífico, desabitada e inóspita, ainda assim com recursos teoricamente suficientes para se sobreviver. Os novos ilhéus recebem, à partida, cinco machetes, cinco anzóis e alguns (rudimentares) apetrechos (por exemplo, uma panela e um bidão metálicos). Terão, depois, de ser capazes de construir abrigos e camas, de fazer uma fogueira e mantê-la, de defender-se dos perigos à solta na ilha, de recolher água e fervê-la (para a tornar bebível sem riscos fatais), de pescar, de caçar, de recolher frutos, tubérculos, moluscos, larvas.
Estão radicalmente entregues a si próprios (as próprias filmagens, realço, estão a cargo destes neo-insulares). Só em último recurso poderão solicitar ajuda do exterior, nomeadamente em caso de desistência ou de problemas graves de saúde. Cada dia é uma luta tremenda. Arranjar comida ou água, tratar de feridas, resistir à inclemência da chuva ou do calor – tudo assume uma dimensão única e épica. A mim, na confortável condição de espectador, comove-me o (raro) sucesso da pesca, a morte de um caimão às mãos de um operador de câmara e de um técnico de informática, a descoberta de uma poça com água suficiente para alguns dias. Ali, dia após dia, cada indivíduo encontra em si e em cada um dos outros as aptidões que, conjugadas solidariamente, tornam menos penosa a sobrevivência.
Ainda que diferidamente, é como se reencontrasse Swift, Defoe, Tournier, Fielding, Camões, Fernão Mendes Pinto, Calvino, Stevenson – e novamente me tornasse cúmplice da aventura fundadora da existência humana, conhecendo e dominando a Natureza, superando os perigos e o sofrimento, resistindo à penúria e ao desânimo.
Tal como percebera, em outras ocasiões, pela literatura de viagens, confirmo nesta série que boa parte do valor da vida está no mérito de ultrapassar os obstáculos e as dificuldades concomitantes ao verbo viver.
Em certo momento, um dos aventureiros fala do aparente paradoxo que há na ilha, por se tratar de um espaço majestosamente belo e mortalmente perigoso. Acrescenta (cito de cor): “Não é só o facto de, aqui e ali, enfrentarmos ratoeiras. É toda a ilha ser uma ratoeira!” Ora, a piada desta observação está no seu potencial metafórico: basta que substituamos “ilha” por “vida”.
Há dois tesouros fundamentais que retiro de quanto tenho televisto para a nossa moderna e mui sofisticada existência:
a) o que temos e damos normalmente por vulgar & adquirido é, se visto sob um ângulo essencial e justo, coisa muitíssimo preciosa;
b) só é possível a sobrevivência de cada um com o esforço (inteligente, concertado e solidário) de todos.

Vila Real, 05 de Novembro de 2017.
Joaquim Jorge Carvalho
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 09-11-2017.]