Bússola do Muito Mar

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Número de Ondas

segunda-feira, 21 de maio de 2018

ZONA DE PERECÍVEIS (137)


A doença do esquecimento

O Jornal de Notícias (JN) do dia 11 de Maio dava conta, numa das suas páginas de informação local, da dramática saga que envolveu certa idosa, no centro do País. A senhora, que sofre de Alzheimer, esteve desaparecida durante vários dias, vindo a ser encontrada a uns dez quilómetros de casa, contra probabilidades e expectativas, bem viva, apesar de desorientada, sem a sua prótese dentária e com algumas escoriações no rosto. 
O mesmo JN, no mesmo dia 11 de Maio, num espaço de evocação cultural, lembrava a figura do general Sousa Brandão, um republicano do século XIX, natural de Santa Maria da Feira. Este engenheiro, segundo aprendi, assumiu particular papel no incremento do transporte ferroviário em Portugal. O artigo sublinhava o facto de, no concelho natal deste vulto, quase ninguém saber fosse o que fosse sobre a sua biografia essencial e de tão-pouco a autarquia o celebrar daquela forma convencional que costuma usar-se: nem uma rua com o seu nome, ou um edifício, ou uma escola, ou uma associação, ou um prémio literário-académico-jornalístico. Nada.
Obviamente, as duas notícias cruzam-se com a ideia de Alzheimer: no primeiro caso, na dimensão literal do fenómeno; no segundo caso, num sentido mais simbólico, mas não menos físico. Para ataque à primeira situação, a ciência parece ainda movimentar-se pelo território geralmente incipiente das hipóteses e da experimentação. Confiemos, entretanto, na generosidade, inteligência e teimosia dos investigadores. O ataque à segunda situação tem respostas – digo eu – mais óbvias, embora igualmente dependentes de um trabalho generoso, inteligente e teimoso, consubstanciável num esforço de informação consistente e sustentada, bem como de respeito pela História e de celebração & estudo dos que, no passado, através do exemplo, criaram beleza, progresso e justiça, oferecendo a contemporâneos e vindouros um País melhor. Camões, nesse seu gigantesco projecto literário chamado Os Lusíadas, quis cantar “aqueles que por obras valerosas / se vão da lei da Morte libertando”. A ignorância, a ingratidão, a preguiça e, às vezes, a indiferença são uma espécie de vírus cultural e histórico. O desprezo (voluntário ou involuntário) das gentes da Feira por Sousa Brandão, vista a coisa a partir desta crónica, são apenas um símbolo do Alzheimer nacional que, em forma de silêncio, recusa o tributo devido a escritores-filósofos-políticos-filantropos-militares-juristas-desportistas-etc
Ora, um Povo que não saiba (e quiçá nem queira saber) dos seus heróis é uma velhinha andando perdidamente por montes e vales, sem rumo nem memória, à procura de nada. 

Vila Real, 12 de Maio de 2018. 
Joaquim Jorge Carvalho 
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 17-05-2018. A imagem (retrato de Sousa Bandão) foi colhida, com a devida vénia, em https://pt.wikipedia.org.]

segunda-feira, 14 de maio de 2018

ZONA DE PERECÍVEIS (136)



Pobreza & riqueza (revisões) 

A Câmara Municipal de Ribeira de Pena (vila do distrito de Vila Real, Trás-os-Montes), no âmbito da comemoração do 44.º aniversário da amada revolução dos cravos, ofereceu aos seus munícipes um espectáculo de teatro de invulgar qualidade. Foi no dia 24 de Abril, pelas 21 horas, no magnífico auditório da terra. A Companhia de Teatro Filandorra, sedeada em Vila Real, apresentou a peça À manhã, de José Luís Peixoto, com sábia encenação de David Carvalho. Era 6ª feira, véspera de feriado, eu estava cansado, disse à minha mulher que não me apetecia sair. Ela insistiu, eu fui. Ainda bem duas vezes. 
A peça fala-nos sobretudo de solidão. Em palco, vemos-ouvimos velhos e velhas, numa qualquer aldeia portuguesa, vítimas da idade e da desertificação. Podia ser num lugar alentejano, ou beirão, ou transmontano. Podia ser uma história com os nossos avós, ou com os nossos pais. Podia ser connosco. 
Durante cerca de hora e meia, comovi-me perante os devaneios de uma idosa com demência; perante o desespero do marido já viúvo antes de o ser (que a esposa confunde com o falecido pai); perante a generosidade de um vizinho, que ilumina as trevas da sua antiguidade e do seu isolamento com a esperança de uma chuva salvadora das couves; perante a desesperada luxúria de uma solteirona, que bem alto afirma a sua virgindade e pouco discretamente a oferece em troca de algum adiado prazer proibido; perante uma viúva bonita, que sofre a falta do seu falecido, a distância (emigrante) de filhos e netos e também uma certa pulsão convivial e erótica, concomitante à circunstância de continuar vivendo. 
A peça de José Luís Peixoto atropelou-me o coração, atirando-me para cima aquela pobreza feita de solidão e de isolamento. Aquela pobreza, sim, que se vê melhor no contexto fragilíssimo da velhice. Recordo Sophia (lida num maravilhoso volume intitulado O Nome das Coisas): “Cortaram os trigos. / Agora / a minha solidão vê-se melhor.” Na verdade, depurada do foguetório ruidoso e colorido da juventude, da saúde, dos sonhos, da esperança, o que fica da nossa circunstância em trânsito é o essencial – neste caso, a tristeza da finitude e da humana impotência face à degradação fatal. E confirmamos, hélas, que a percepção da doença é mais vívida e trágica quando se está sozinho. 
A peça funda-se numa realidade portuguesa, familiar, próxima. As personagens são, de um ponto de vista económico e social, os nossos próprios velhos, sós e pobres, pobres e sós. Mas a pobreza maior, ali, visto o fenómeno pelos olhos comovidos do espectador, é mesmo a já dita solidão e o já dito isolamento. O meu sogro, num já longínquo Agosto, ao entardecer, numa espanada fronteira à praia de Machico, na Madeira, quando se discutia as vantagens de ser rico, disse-me: “Ser rico é não estarmos sós.” 
Ando a ficar lamechas com a idade. Isso ajudará a explicar as minhas lágrimas, no final, durante o longo aplauso aos actores e ao encenador, tributo em que participei também. E as lágrimas que vieram a seguir, durante a interpretação de “Grândola, Vila Morena”, do nosso amado Zeca, que juntou as vozes de artistas e público. Digo-vos: naquela mui rica hora da minha vida, no regaço do Teatro e de Abril, não havia solidão. 

Vila Real, 05 de Maio de 2018. 
Joaquim Jorge Carvalho 
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 09-05-2018. A imagem foi colhida, com a devida vénia, em https://www.avozdetrasosmontes.pt.]


quinta-feira, 3 de maio de 2018

ZONA DE PERECÍVEIS (135)

O chapéu do Vilaça e a justiça

Quase no final dessa obra-prima chamada Os Maias, do grande Eça, há um episódio de cariz burlesco que parece interromper o curso trágico dos acontecimentos. É no capítulo XVII. Carlos da Maia conversa com João da Ega sobre o Destino, concretamente sobre a extraordinária coincidência de um homem se apaixonar, entre tantas mulheres possíveis, pela própria irmã, na ignorância, ai dele, do parentesco. A este drama romântico junta-se um pormenor terrível, já mais próximo do imaginário naturalista-realista: Carlos, inebriado pela proximidade do corpo feminino de Maria Eduarda, não resiste a uma noite mais de amor, mesmo já ciente do concomitante incesto. No meio do colóquio com o melhor amigo, o protagonista é interpelado pelo procurador da família, o senhor Vilaça, que não sabe do seu chapéu e precisa dele para sair de casa. Lá se procura o chapéu, mas em vão. O Vilaça sai, pedindo desculpas pelo incómodo, e os amigos retomam a conversa. Poucos minutos depois, aparece novamente o Vilaça, pois o chapéu não há meio de aparecer e pode dar-se o caso de antes não se ter procurado bem. Lá voltam a procurar o chapéu, uma vez mais em vão. O Vilaça redobra as suas desculpas pelo incómodo e sai, permitindo que novamente ali se reate a melodia trágica da má fortuna caindo sobre pobres burgueses mortais. Mas, breves instantes depois, é Baptista, o criado-de-quarto de Carlos da Maia, quem os interrompe, porque o chapéu teima em não aparecer em lado algum, e o senhor Vilaça não quer ser visto na rua sem ele. Carlos explode, impaciente e indignado, manda que se empreste ao Vilaça um chapéu qualquer, irra, e sobretudo que não o importunem mais. 
Eu lembro-me de ouvir José Augusto Bernardes, Professor da Universidade de Coimbra, durante o ano curricular do meu doutoramento (aí por 2009), explicar o episódio como a omnipresença (diegética) do ambiente burguês na ação principal, forma de ilustrar a sociedade portuguesa tão dada a aparências, a formalismos, a convenções: o pobre procurador receava, ali, perder o respeito e a credibilidade pessoais se o vissem na rua sem tão importante apêndice indumentário. 
Na mesma sessão, falei eu próprio deste episódio como um exemplo de economia narrativa: uma pequena história interrompia a história principal, disputava-lhe a atenção, consumia-lhe tempo de discurso. Defendi que o grito final de Carlos da Maia significaria, ali, a prevalência narratológica da acção nuclear sobre a secundária. Era preciso continuar a narração mais importante, logo o chapéu do Vilaça deveria reduzir-se, a determinada altura, à sua insignificância relativa. 
Voltei a lembrar-me do chapéu do Vilaça a propósito da justiça portuguesa, que anda entretida com vídeos de interrogatórios a Sócrates e – no território da futebolice – com questões técnico-jurídicas sobre o acesso a emails e o cariz (legal ou ilegal) da consabida venalidade de árbitros, jogadores, dirigentes, oficiais de justiça, advogados, juízes, dirigentes. Explosões de ruído histriónico, de retórica ociosa, de fogo-de-artifício manhoso ou de maquiavélico caos multiplicam-se pela pantalha, pela radiofonia, pela papelaria mediática. São o chapéu do Vilaça, senhores! E é preciso que a gente não se distraia. Nestas tragédias, queremos mesmo saber, acima de tudo, o que aconteceu, o que acontece, o que vai acontecer em termos de acção principal. 

Vila Real, 28 de Abril de 2018. 
Joaquim Jorge Carvalho 
[A imagem, que faz parte do filme Os Maias, de João Botelho (2014), inspirado no romance homónimo de Eça de Queirós, foi colhida, com a devida vénia, em www.apaladewalsh.com.]

quinta-feira, 26 de abril de 2018

ZONA DE PERECÍVEIS (134)


O neto do Gaitinhas escreveu ao cronista

Alhandra 24 de Abril de 2018. 

Caro Amigo, 

Andava há anos para lhe escrever. Soube, por conhecidos e familiares, da sua estima e da sua admiração por Soeiro Pereira Gomes, o autor de Esteiros. Comoveram-me alguns textos, lidos em jornais, blogues e trabalhos académicos, que dedicou à obra desse tão talentoso e tão honesto escritor. Eu sou neto do Gaitinhas, veja bem. Do Gaitinhas, sim, um desses meninos a quem roubaram, sem remédio, essa condição. Ouvi muitas vezes o meu avô, por aqui, nos arredores de Paris, recordar o Guedelhas, o Gineto, o Maquineta e Sagui, seus camaradas de sonhos e de tristezas. 
Escrevo-lhe por ser véspera do glorioso dia 25 de Abril. Em 1974, já o senhor Soeiro Pereira Gomes estava morto há mais de vinte anos e o meu avô tinha meio século de idade. Sofria de uma doença nos pulmões, não sei se lhe disseram – e dessa doença também morreria, aliás, alguns anos antes, a minha bisavó, sua mãe, vítima da pobreza em geral e de tuberculose e solidão em particular. Ainda rapaz, o meu avô emigrou para França, à procura do pai. Nunca o encontrou, apesar de por muito tempo o ter procurado. No dia do seu casamento (com uma concierge madeirense, que trabalhava no prédio onde vivia o patrão de ambos), lá soube que o pai morrera há alguns anos, num estaleiro próximo. 
O meu avô Gaitinhas teve uma filha. (“Ainda bem que não foi um rapaz”, costumava ele dizer, ”para evitar chatices com a tropa.”) A filha do meu avô teve dois filhos – o meu irmão António, que foi para a Bélgica trabalhar na televisão, como cameraman, e eu próprio, que herdei de meu pai (também português) uma empresa pequenina de construção civil. Brevemente, o meu genro (um francês de Saint-Galmier) tomará esse lugar, e eu poderei enfim ir viver para Portugal. A minha mulher é espanhola, nada e criada até aos seus doze anos na Galiza, e não se opõe a esta minha vontade. 
Eu nasci em França, caro amigo, mas escolhi ser português por tanto ouvir o avô falar do País. Ele, a quem o regime fascista roubou a infância, o pai e a mãe, o futuro, amou sempre Portugal, fiel como um cão. Conversava connosco em Português, cantava em Português, celebrava a Liberdade, a Democracia e a Igualdade em Português. 
No dia 26 de Abril de 1974, vi-o chorar, à hora do almoço, junto ao rádio, confirmando a chegada do futuro ao seu (nosso) País. Em sua casa, a “Grândola, Vila Morena”, do Zeca, era tão solene como o hino nacional. E a cançoneta “Somos livres”, da actriz Ermelinda Duarte, valia por todos os programas políticos que diariamente eram divulgados por jornais, rádio e televisão. “Não voltaremos atrás”, cantávamos eu e ele em coro. 
O meu avô teve muita pena de não poder celebrar a liberdade com o amigo Soeiro Pereira Gomes, tão cedo falecido. Mas ainda abraçou algumas das personagens de Esteiros. Lembro-me de o ouvir dizer a um deles: “Mesmo que isto já não seja para nós, há-de ser bom para os vindouros, pá!” 
Eu, à época, era um vindouro. Agora, em viagem para velho, sabe-me bem confirmar o vaticínio do Gaitinhas. E comungar a gratidão que ele publicamente manifestava por quem fez a revolução. 
Bem sei que o nosso País continua inevitavelmente imperfeito, mas já não é normal que as crianças sejam mão-de-obra adulta à força; que a miséria seja uma sorte fatal e hereditária; que o destino de todos seja determinado pela tirania de uns poucos. 
Não é como neto do Gaitinhas que lhe agradeço o interesse por Esteiros, caro Amigo. É como português, amante da Liberdade. A ideia de, pela leitura, manter vivo Soeiro Pereira Gomes é, na essência, algo muito parecido com a celebração viva e grata da revolução de 1974. A escritora Agustina fala (salvo erro, na Sibila) de “memória do amor”. Eu fico-me pela memória do meu avô Gaitinhas, que vem a dar ao mesmo. 

Um abraço! 

VL 

[Nota: Esta carta, embora fictícia, está longe de ser mentira. Quem não acreditar, como diria o cronista há 45 anos, a propósito de tudo, é fascista.] 

Vila Real, 22 de Abril de 2018. 
Joaquim Jorge Carvalho
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 26-04-2018. A imagem, já utilizada neste blogue, é da autoria do meu Amigo Manuel Vilela, que a fabricou, a pedido, para um libreto relativo ao espectáculo teatral A Noite de 24 de Abril. (Nota: esta peça, levada já por diversas vezes à cena, com interpretação de alunos ou docentes, é uma adaptação minha da obra A Noite, do grande José Saramago.]

sexta-feira, 20 de abril de 2018

ZONA DE PERECÍVEIS (133)


Crónica do não feito

Hipermercado de uma grande superfície comercial coimbrinha. Na zona da fruta, enquanto hesito entre tangerinas e clementinas, um homem ricamente vestido (fato cinzento, camisa creme sob colete talvez azul-escuro, gravata de fundo castanho com oblíquas riscas da cor do colete) queixa-se a um funcionário de algum equívoco no preço das bananas. O funcionário, um moço com não mais de 25 anos, de aspecto honesto e bondoso, ouve-o com grande deferência e, logo que o reclamador se cala para tomar fôlego, pede-lhe desculpas em nome do patrão, usando para o efeito, note-se, vocabulário e sintaxe exemplares.
Percebo facilmente que se trata de uma troca de etiquetas, da responsabilidade de algum funcionário do turno anterior, que confundira o preço da banana importada com o da banana da Madeira. Percebo tudo facilmente porque a explicação do jovem funcionário é ali sempre clara e concisa, para além de amável. Mas o senhor elegante faz questão de se queixar mais e mais, como se a lógica e a gentileza do moço lhe acendessem ou avivassem maiores azedumes e fúrias. Em voz sonorosa, como se discursasse perante um grupo de discípulos relapsos, de insubordinados militares ou de réus culpados dos maiores crimes, garante que a ele não o tomam por parvo, que “vocês não sabem com quem estão a lidar”, que a explicação do empregado é “um chorrilho de tangas”. Em certo momento, olha à volta para colher os aplausos que a sua aristocrática bravata talvez colhesse do público admirador ou (julga o pavão) cúmplice. Eu miro-o com a mais eloquente reprovação de que sou capaz, por me parecer tão evidente a sem-razão daquela gritaria e daquela arrogância, mas isso não lhe diminui o arzinho triunfante. Já com as clementinas ensacadas e pesadas, tenho de me afastar do local. São umas nove e meia da noite. O jovem funcionário deve estar em funções há muito tempo, percebe-se o seu ar cansado, o esforço zigomático para o sorriso profissionalmente cordato, a humilde vontade de resolver o (putativo) problema e de voltar à normalidade pacífica do seu ofício.
Disse-vos, senhores, o que aconteceu. Digo-vos agora o que deveria ter acontecido. Eu deveria ter voltado atrás e cumprimentado o rapaz. Dizer-lhe que eram admiráveis a paciência, a simpatia e a competência ali demonstradas, face à fera do fato rico e da voz sonorosa. Sim, eu deveria ter voltado atrás e dito ao senhor Excremento Nobre que aquela brutalidade contra o funcionário era injusta e parva. Que o rapaz ali sujeito à gratuita humilhação era um simples funcionário a cumprir exemplarmente os seus deveres (à razão provável do ordenado mínimo), sem culpa dos grandes males do mundo ou das pessoais frustrações das excelências engravatadas. Deveria ter voltado atrás, senhores, e soltado a minha própria acrimónia, aliás repetível sempre que (com demasiada frequência) topo com as bestas quadradas da vida.
Perdoai o desabafo, se vos for possível, mas sucede-me pensar, muitas vezes, que a estupidez infernizadora do mundo só se resolve com recurso ao insulto. Ou à chapada. Ou, por razões de civilização, de saúde e de oportunidade, à crónica de jornal.

Vila Real, 14 de Abril de 2018.
Joaquim Jorge Carvalho
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 19-04-2018. A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http:/educaforum.blogspot.pt.]


segunda-feira, 16 de abril de 2018

ZONA DE PERECÍVEIS (132)



O (o)caso de Lula


Terá sido Pierre Vergniaud a dizer, das revoluções, que se assemelhavam a Cronos, também elas devorando os seus filhos. O próprio Vergniaud serviu de ilustração para este mortal apotegma, como se sabe. 
Em Portugal, Otelo será, entre outros exemplos, a mais viva prova do que o francês do século XVIII axiomaticamente postulou. Rosto imperecível do 25 de Abril da nossa liberdade e da nossa democracia, acabou por se meter, no tempo seguinte à madrugada da claridade máxima, em algumas alhadas bem menos luminosas, que envolveram acusações graves e até prisão.
Em muitas latitudes, abundam nomes de anjos populares que, de um momento para o outro, devêm vilões odiados e perseguidos. Quase sempre ocorre, no entretanto, alguma degradação da conduta de cada ainda-agora-tão-amado-herói, e a posteriori a leitura política ou histórica da sua biografia lá tenderá a arrumá-lo numa nevoenta nota de rodapé mais dada ao opróbrio cínico que à elegia épica.
Agora, Lula da Silva. Sob a sua liderança, por anos seguidos, o Brasil foi um maravilhoso exemplo de emancipação democrática e de progresso social e económico. O País promoveu a igualdade dos brasileiros no acesso à educação, à saúde e à justiça, tornando-se, aos olhos de todo o mundo – e com base em insuspeitos estudos e indicadores –, num lugar mais digno, mais justo, mais decente. Que sucedeu depois? O mais fácil é ler o fenómeno à luz da natureza corruptível de todos os seres humanos: talvez o homem do povo se tenha deslumbrado com as mordomias do poder e da riqueza, quiçá acreditando que tantos sacrifícios e méritos pessoais justificariam alguma retribuição venal. Talvez.
Mas essa percepção não elimina a fortíssima suspeita de que todo o processo começara já no oportuno-oportunista descrédito que sofreu o Partido dos Trabalhadores - com culpas próprias, naturalmente -, seguido do impeachment de Dilma Rousseff e culminando na entrega da presidência ao sinistro Michel Temer (sem, note-se, aquela maçada das eleições). Lula seria provavelmente o próximo presidente do Brasil, o que representava, para muitos brasileiros saudosos da ditadura ou assustados com o regresso da esquerda ao governo, um perigo. A sua prisão, nesse contexto, afigura-se muitíssimo conveniente.
Ponto de ordem: Lula da Silva não está, não pode estar acima da lei. Nem os maiores heróis de um País podem, num estado de direito, fugir à justiça. Mas - perdoai a desconfiança de quem, à distância, segue esta telenovela nos média – cheira aqui muito a esturro. E não é irónico que o beneficiário imediato da queda do PT seja um presidente acusado de numerosas ilegalidades, homónimo de um verbo no infinitivo tão curioso como Temer?

Coimbra, 08 de Abril de 2018.
Joaquim Jorge Carvalho
[Esta crónica foi pubçicada no semanário O Ribatejo, edição de 12-04-2018. A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.observador.pt.]



terça-feira, 10 de abril de 2018

ZONA DE PERECÍVEIS (131)





Marx, ópio e futebol

Se Marx visitasse o planeta dos nossos dias, decerto reformularia aquela famosa metáfora que explicava a religião como “o ópio do povo”. À ideia de anestesia servida como combate de fé, acrescentaria (digo eu) uma outra mais moderna e quiçá mais folclórica, mas não menos letal – o futebol. 
Mesmo involuntariamente, testemunho todos os dias a omnipresença da futebolice no quotidiano do mundo, em particular na paróquia da minha circunstância, Portugal. Tenho percebido, com facilidade e melancolia, a semelhança de modos e de argumentação que há entre o clubismo e outras formas mais bárbaras de intolerância, como o racismo, a xenofobia, etc.. 
Nos jornais, na televisão, na rádio, nos cafés, nas escolas, nos hospitais, nas repartições, nas mercearias, nas fábricas do País, a gritaria mais bestial vem substituindo quaisquer hipóteses de convívio ou fraternidade com o outro. Não é sem espanto ou susto que observo, nos olhares, nos gestos, nas palavras dos meus interlocutores pontuais, um absoluto ódio à gente de outros clubes, i.e. à diferença. 
As claques são elas próprias uma espécie de alegoria do futebol dos nossos dias: por um lado, representam uma dimensão estética e emocional que, a inexistir, tornaria o espectáculo muito mais pobre; por outro lado, significam o fanatismo mais primário e perigoso, ali formalmente elevado à categoria de instituição. 
Eu joguei futebol durante muitos anos e, antes & depois desse alegre parênteses biográfico, amei de forma profunda e generosa esta modalidade. Ainda sofro, ó triste, com o meu Sporting, como se em campo estivesse o meu Pai, de quem naturalmente herdei este amor leonino. Sabei que vibro com os golos da minha equipa e, embora com mágoa, também com a qualidade deste ou daquele jogador dos rivais. Mas não tenho paciência já para a vozearia ignorante, balofa e boçal dos que, à roda do futebol, na maioria dos casos sem perceber sequer um átomo desse fenómeno, inundam os média e as nossas ruas de bílis mortal e de escarros palavrosos. 
Atenção: não defendo, com este desabafo higiénico, que a justiça deixe de investigar as alegadas trapaças ultimamente divulgadas. Era o que faltava! Mas gostaria sobretudo de regressar, no aconchego do sofá ou do estádio, àquele estado de pura e feliz comunhão com os que, como o cronista, amam o seu clube e, concomitantemente, o futebol. 
Ópio, senhor Marx? Por um lado, talvez; por outro lado, não. Vista a coisa destas perecíveis linhas, acredite, trata-se sobretudo de uma festa.

Coimbra, 01 de Abril de 2018.
Joaquim Jorge Carvalho
[Esta imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.waysup.com.]

sábado, 31 de março de 2018

ZONA DE PERECÍVEIS (130)



Balada do Sol comum

No primeiro dia oficial da Primavera, numa vila chamada Arco de Baúlhe (do concelho de Cabeceiras de Basto, distrito de Braga), houve mais um Sarau na Escola Básica local. A sala de convívio voltou a encher-se de crianças, jovens, adultos velhos e novos, num clima de fraternal festa que não cessa de me impressionar. O coração do evento é o livro, a literatura. Mas a dinâmica abraça a arte em geral: o desenho, a pintura, a dança, o teatro e o cinema dividem a atenção e o aplauso do público com a leitura expressiva (treinada semanas a fio) de poemas.
Para mim, como sempre, as semanas anteriores ao Sarau foram um misto de fadiga extrema e prazer profundo. Revejo-me nesta Escola que, transcendendo a dimensão puramente instrucional, se auto-obriga a oferecer Cultura a alunos e famílias locais. Os rankings e as percentagens de sucesso são importantes? Claro. Mas a nossa função vai (deve ir) para além dessa esfera. Concomitante aos currículos elementares, deve comparecer a educação literária e artística. Os nossos jovens têm o direito a conhecer grandes obras e grandes autores da literatura, mas também o de, pela via da própria experiência estética (como receptores ou intérpretes do corpus lido-estudado), se apropriarem dessa linguagem delicada e preciosa e de por essa via profundamente crescerem.
Encontro, muitas vezes, antigos alunos que me falam, com saudade (e, perdoai a imodéstia) com gratidão, dos nossos espectáculos teatrais, dos nossos filmes, dos nossos projectos de jornalismo, dos nossos encontros de poesia.
O Sarau do Arco fez-se sobretudo dos contributos de três Clubes: o Clube de Música, o Clube de Teatro & Cinema e o Clube de Artes. Durante duas horas, oferecemos momentos de poesia, de música, de teatro de cinema, num espantoso cenário feito dos desenhos e das pinturas de juvenis alunos e de uma maravilhosa professora de Educação Visual (Rosário Coelho).
Dei por mim ali a pensar no misterioso poder da Cultura, essa substância misteriosa que torna menos bestial a humanidade: gente habituada aos Big Brothers televisivos, aos clichês telenovelescos, à rotina violenta dos horários e das contas a pagar, à rivalidade cancerígena da política ou do futebol – ali estava ela rindo-se da comédia, comovendo-se com um pequeno filme, dialogando com os poemas ditos (mais do que declamados) por vozes jovens, batendo palmas ao ritmo da música chegada do palco. Noites assim tão luminosas, senhores, parecem manhãs. E passam depressa, sendo (afinal) a eternidade.
Última nota: pela primeira vez em dez anos, um dos poemas lidos no Sarau era – imaginai – cá do cronista. Foi maravilhosamente lido-dito por três alunas do oitavo ano. Ouso inscrevê-lo aqui, por representar aquela relação improvável, mas fatal, entre a cínica realidade onde sobrevivemos e a literatura que nos faz viver, ou (como brilhantemente me ensinou a Doutora Maria Irene Ramalho dos Santos, da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra) a relação entre mundo político e mundo poético. Com licença:
Deixo a poesia num canto do quarto / E vou trabalhar. / Ela aparece-me por vezes em lugares inconvenientes / E ri-se do meu espanto ou indignação. / “Sai daqui”, digo-lhe então, embaraçado. / Ela ri-se e espreguiça-se, gaiata e trocista, / Sobre um rascunho de acta / Sobre uma grelha de critérios / Sobre um guardanapo de pastelaria / Sobre uma planificação séria. / “Sai tu daí”, grita, fingindo que me beija. / “Já aqui estava antes de ti”, reclamo eu. / “Parece-te”, diz ela. “Eu já aqui andava / Antes de existires.” / Lá acabamos por regressar a casa / Juntos como corpo e sombra / Filhos ambos do mesmo Sol.

O mesmo Sol, Amigos leitores. 

Vila Real, 25 de Março de 2018. 
Joaquim Jorge Carvalho 
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 29-03-2018. A imagem foi copiada, com a devida vénia, das dezenas de contributos que a minha Colega Rosário Coelho ofereceu ao Sarau.]

segunda-feira, 26 de março de 2018

ZONA DE PERECÍVEIS (129)

O chico-espertismo diplomado

A crónica que o leitor generosamente lê, hoje, foi esboçada há uma semana, na sequência do justo escândalo à volta do currículo académico de Feliciano Barreiras Duarte. Entretanto, o senhor demitiu-se, só para aborrecer o cronista. 
Para os que, por sorte ou falta de paciência, não acompanham a política nacional, vale a pena recordar que Barreiras Duarte é um destacado militante do PSD, recentemente escolhido para secretário-geral pelo novo presidente, Rui Rio. Para além da carreira política (que inclui o lugar de deputado à Assembleia da República), protagonizou um curioso percurso académico: 1 - obteve a licenciatura em Direito, com a média de 11 valores, após nove anos de matrículas; 2 - quis cursar um doutoramento antes de ser mestre, e lá conseguiu, com base no seu currículo político-profissional, uma abstrusa equivalência a mestrado, pressuposto para a sua admissão ao doutoramento. Li que o facto de ter sido, segundo reportava no CV, “visiting scholar” numa universidade americana foi determinante para a obtenção desta benesse académica. É aqui que “a porca torce o rabo” em matéria de decência ética e até de legalidade: o beneficiário nunca foi “visting scholar” na tal universidade, embora tenha abusivamente acrescentado esse dado às suas, digamos assim, habilitações. 
Resultado deste episódio trágico-cómico (que lembra outros recentes, como a licenciatura domingueira de um ex-chefe de governo, ou o jackpot de equivalências de um ex-ministro): Rui Rio começou torto a sua liderança laranja e, por dolorosos dias, deve ter suspirado pelo rebate de consciência do seu eleito, seguido da higiénica demissão – e talvez (digo eu) de um honesto pedido de desculpas de Barreiras Duarte. 
Questão: o que leva um homem maduro a meter-se em tamanho imbróglio? É demasiado fácil, creio, a mui paternalista e fleumática explicação de que tudo resultará de falta de inteligência e de escrúpulos, ou de permissividade (senão de coisa mais grave) das instituições universitárias hodiernas. 
Sem prejuízo de motivos mais conspícuos para este chico-espertismo, ouso acrescentar duas razões relevantes, que aliás vão muito para além do caso glosado: 
a) os chico-espertos da vida preterem intimamente o mérito académico (i.e., o saber e os conhecimentos resultantes do estudo) em favor do status, por acreditarem que os títulos universitários são apenas instrumentais passaportes para o reconhecimento social e para a carreira(zinha) profissional e política;
b) os chico-espertos estão convencidos de que “o crime compensa”, pois quem chega aos patamares superiores do poder estará, depois, longe da fiscalização pública e, por essa via, ganhará uma espécie de imunidade sagrada. 
Terríveis erros: 
a) nenhum título académico esconderá a ignorância dos ignorantes licenciados, pós-graduados, mestres ou doutores; 
b) quanto mais alto um indivíduo está na hierarquia do poder, maior visibilidade adquire, logo mais susceptível se torna de análise e crítica dos outros, seja na modalidade de reconhecimento de mérito (se o houver), seja na denúncia de defeitos (como tem acontecido neste caso, com o riso e o desprezo habituais do jovial zé-povinho). 
Já agora: tudo quanto vos digo é mais fácil de entender para quem ainda souber o que significa, de facto, ter vergonha na cara. 

Coimbra, 19 de Março de 2018. 
Joaquim Jorge Carvalho 
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 22-03-2018. A imagem (com a imorredoira Mafalda, de Quino) foi colhida, com a devida vénia, em http://www.grupoconstruçaocoletiva.blogspot.pt.]

segunda-feira, 19 de março de 2018

ZONA DE PERECÍVEIS (128)



A arte de bem conversar 

Assisti, há dias, a uma extraordinária entrevista televisiva no Canal Q, conduzida pelo competentíssimo Aurélio Gomes. O entrevistado, um arqueólogo de – talvez – sessenta e muitos anos (ou mais), com um currículo extenso e variado na resistência ao fascismo, revisitou a sua biografia de forma ora divertida, ora dramática. Cada pergunta era, em regra, motivo para considerações e relatos cheios de vida e de graça. O principal mérito do entrevistador, ali, foi dar tempo ao entrevistado para discorrer sobre as suas memórias, as suas ideias, as suas emoções. 
Ocorrem-me, em contraponto, algumas máquinas-de-falatório que pululam pela pantalha generalista. Gente que vê o entrevistado como mera peça acessória do ofício entrevistador. Gente que quer brilhar, sem paciência para ouvir a profundidade de cada resposta. Sim, há um certo estilo esganiçado que assassina as entrevistas. Já testemunhei demasiadas vezes este tipo de crime, senhores: um entrevistado avisa, para nossa felicidade espectadora, que vai contar uma história; a jornalista, a rebentar de ego incontinente, não admite desvios e, atropelando a história que aí vinha, atira-lhe: “Mas o que é que vai mudar agora na sua carreira?” [Nota: nos cursos de jornalismo, deveria explicar-se aos futuros entrevistadores que, quando alguém vai contar uma história, dá-se-lhe tempo para o exercício narrativo.] 
Por razões de espaço e, já agora, de higiene retórica, omito nomes exemplares desta pulsão narcísica, inimigo(a)s recorrentes de conversas, capazes de reduzir à vulgaridade os verdadeiros tesouros que lhes chegam às mãos. Mas há duas figuras que gratamente elejo como modelos da conversação competente e invariavelmente interessante: Armando Baptista-Bastos (jornalista e escritor, recentemente falecido) e Júlio Isidro (decano da rádio e da televisão, ainda no activo). Lembro-me de Baptista-Bastos a entrevistar, na SIC, um português septuagenário que tivera de sair de Portugal por motivos políticos e vivera em França, durante décadas, até chegar o 25 de Abril de 1974. O entrevistado, ao recordar-reviver alguns episódios, chorava. Que fez Baptista-Bastos? Respeitou-lhe o tempo do pranto, dos suspiros, do próprio exercício da memória. Pontualmente, intervinha a propósito e com delicadeza. Resultado: uma entrevista inesquecível. 
Júlio Isidro mantém, na RTP Memória, um espaço de entrevista, normalmente dedicado a nomes mais antigos da música, do teatro, da rádio e da televisão. Bem preparado, culto, sensato, delicado, Júlio Isidro dá o palco aos entrevistados – e estes, sentindo-se confortáveis (em casa), vencem qualquer timidez ou medo de falar: são genuínos, espontâneos, sinceros, humanamente interessantes. Para o espectador, não tenho dúvidas, é um regalo. 
Saltemos, ó Leitor, deste domínio técnico-profissional (a entrevista) para a nossa vidinha de todos os dias. Quantas conversas se perdem por não se dar ao outro tempo de falar? Quanta novidade se deixa de receber por falta de paciência (ou humildade)? Sabei que, ao telefone comigo, a minha velha Mãe tende a interromper-se, a suspender a fala, ou porque se esquece do que dizia, ou porque há nomes-datas que tardam a chegar-lhe ao discurso. Eu aprendi a deixá-la respirar, sem pressas egoístas e contraproducentes. Depois, ouço-a gritar: “Ah! Já me lembro!... Ainda estás aí?”
Estou, Mãe. Estou a ouvi-la. É essa também a obrigação de quem conversa, não é? 

Vila Real, 11 de Março de 2018.
Joaquim Jorge Carvalho
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 15-03-2018. As imagens (Baptista-Bastos entrevistando o Professor Agostinho da Silva e Júlio Isidro entrevistando Madalena Iglésias) foram colhidas, respectivamente, & com a devida vénia, em www.ensina.rtp.pt. e em www.youtube.com.]

segunda-feira, 12 de março de 2018

ZONA DE PERECÍVEIS (127)

Pães nossos de cada dia

Passou no jornal da SIC, a 22 de Fevereiro, uma reportagem bem interessante. Em traços muito resumidos, os espectadores conheceram uma família brasileira ainda jovem (Pai, Mãe, uma Filha), gente culta, de estrato socioeconómico médio-alto, que veio radicar-se em Portugal. O motivo, está-se mesmo a ver, não foi a pobreza ou o desemprego, como acontece na maioria dos casos de emigração. Aliás, aquela Mãe tinha uma empresa bem-sucedida no Brasil, que agora continua a dirigir à distância, via internet. Pergunta: que motivo terá estado, afinal, na decisão (decerto dolorosa) de migrar? Resposta: a segurança.
Assisti a caso semelhante, há dois anos, na escola onde trabalho: já em pleno 3.º período, apareceu-me um novo aluno, de origem brasileira. Os pais sabiam que mês e meio era tempo insuficiente para o filho transitar para o 10.º ano, mas tranquilamente aceitaram a situação: queriam apenas que ele se adaptasse, de modo a, no ano lectivo seguinte, recomeçar o 9.º ano, plenamente integrada na realidade portuguesa. Porque vinham – acrescentaram - para ficar muito tempo, talvez para sempre. Motivo da vinda: a segurança da família.
Agora, um ponto de ordem: esta crónica não é sobre o Brasil. Creio que há várias e distintas realidades nesse país (ou, dito de outro modo, em todos os lados há Brasis de insegurança, incluindo em Portugal). O que aqui vos trago para reflexão é o valor da paz e da ordem, no contexto da ideia de felicidade humana.
Conhecemos casos de migrantes que procuram um lugar onde seja possível sobreviver no sentido mais básico de todos, i.e., de ganhar o pão de cada dia. E casos de migrantes que fogem de ditaduras, de racismo, de intolerância religiosa, i.e., que buscam um espaço de democracia, de tolerância e de liberdade. Nos últimos tempos, há também quem simplesmente aspire a um espaço onde seja possível ter os filhos na escola (pública ou privada) sem o risco de roubos-raptos-agressões-morte. Um espaço onde seja possível parar no semáforo vermelho sem que, de súbito, surja o assassino que para sempre enlutará a família. Um espaço onde seja possível levar a descendência à praia e regressar a casa, com todos vivos, para o almoço de Sábado.
É verdade que a emigração continua a significar, maioritariamente, um caminho para o pão. Mas a natureza do pão varia. Há, em síntese, o pão-comida (pão-pão), o pão-democracia e liberdade e o pão-segurança. Nenhum destes pães é individualmente bastante para vivermos felizes.
Eu abomino os clichês que fazem a apologia da resignação e da passividade, sobretudo pela via da relativização dos nossos males (“Conforma-te”; “Há quem tenha menos”; etc.). Queixarmo-nos faz parte da nossa condição e da nossa dignidade, ponto final. O meu ponto é outro, quiçá ingénuo: orgulho-me de viver num País que tem, hoje, para oferecer aos nativos e aos imigrantes, esse oxigénio vital da democracia, da liberdade, da tolerância e da razoável segurança. Não é mau.

Coimbra, 02 de Março de 2018.
Joaquim Jorge Carvalho
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 07-03-2018. A imagem (exemplo do melhorque háem Portugal) foi colhida, com a devida vénia, em http://www.coimbraportugalguide.com]

segunda-feira, 5 de março de 2018

ZONA DE PERECÍVEIS (126)


Diário de bordo 

À semelhança do que sucede com alguns milhões de indivíduos, costumo andar pelos cafés-consultórios-reuniões-jardins desta vida com um caderno em que aponto entidades-referências-valores-prazos das contas a pagar, datas de aniversário, tarefas a cumprir (na escola e em casa), versos, historietas, nomes e contactos telefónicos, ideias para crónicas. Chamo a estes cadernos, com escusada pompa, “diários de bordo”, apondo sempre às respectivas capas a data em que neles começo a escrever. 
Estreei o mais recente com três apontamentos, quase todos barro para qualquer que fosse a olaria textual escolhida. Desaguarão, para já, nesta crónica. 
1. Desafiei os meus alunos do oitavo ano de escolaridade a analisar um belíssimo texto de José Gomes Ferreira, intitulado “Sou uma nuvem” (in O mundo dos outros – histórias e vagabundagens). A maioria dos jovens leitores percebeu logo o horror ali glosado – o de, pressionados pela necessidade de aceitação social, podermos alienar de nós próprios o que verdadeiramente somos. Isto é, de trocarmos a liberdade pelo comodismo. Isto é, a nossa voz individual pelo balido indistinto da multidão. Mas houve quem, na turma, reclamasse o direito a, no quotidiano feroz da escola e da vida em geral, uma pessoa se acomodar, sim, e corresponder à vontade dos outros (ainda que sacrificando a pessoal independência): uma menina, de olhar frágil e assustado, murmurou que “assim, sofremos menos e não chateamos os outros.” 
2. Tenho um cunhado (mais um) numa paliativa cama de hospital, à espera de partir para aquele lugar sem tempo que é (será) o de todos. A iminência inevitável convoca já, neste presente oncológico, súbitas e frequentes lágrimas, que hão-de continuar e crescer num futuro demasiado próximo. A espera tem enchido os meus dias familiares de mortalidade e de desespero, mas entretanto almoçamos, jantamos, trabalhamos, cumprimos horários, e vamos de manhã à janela ver o tempo que faz para escolher a roupa adequada.
3. Numa gaveta da mesinha-de-cabeceira, enquanto procurava comprimidos para a dor de cabeça, encontrei duas chaves não sei de que portas ou armários, portanto inúteis como o volante de um carro sem motor nem rodas. Encontrei também o coto de uma vela azul, resto obsoleto de alguma iluminação salvadora que me terá valido em ocasião passada. A minha mulher perguntou-me: “Encontraste os comprimidos?” Respondi-lhe: “Não. Encontrei duas metáforas tristes.” 

Vila Real, 25 de Fevereiro de 2018. 
Joaquim Jorge Carvalho 
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, na net.]

terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

ZONA DE PERECÍVEIS (125)


O sucesso em forma de anedota

 Ouvi, há muitos anos, uma anedota que volta & meia recordo, já menos pela graça original que pela eficaz representação do conceito de absurdo. Conto-a, com vossa licença. 
 Um homem chega a casa e testemunha a infidelidade da esposa, envolvida com um primo seu (dele), sem roupa e sem vergonha, sobre um sofá cinzento que o infeliz comprara há pouco tempo. Resistindo – por não desejar o escândalo nem o fim do casamento - ao impulso de um acto violento, o homem retira-se discretamente do teatro de operações e vai para a tasca beber uns copos. Um amigo apercebe-se do seu nervosismo, da sua tristeza, do seu ar deprimido – e questiona-o (“Que se passa, pá?”). O marido defraudado desabafa, descrevendo-lhe a cena com pormenores dolorosos (a nudez conspícua, os sacramentos traídos, o sofá quase novo), pouco espaço deixando ao interlocutor para qualquer consolo conveniente. Uma semana depois, voltam a encontrar-se na mesma tasca e o homem vítima do destino não aparenta qualquer perturbação: conversa alegremente, ri-se ruidosamente. O amigo trá-lo para um canto e pergunta-lhe se “aquele problema” já está resolvido. A princípio, o outro nem percebe a pergunta; depois, após ter ouvido o confidente recordar-lhe, com cuidadosa escolha de palavras, a angústia da semana anterior, responde: “Ah! Está tudo resolvido.” “Perdoaste-lhe? Divorciaste-te?”, quer saber o perguntador. Responde o marido-novamente-feliz: ”Não. Vendi o sofá.” 
 Cruza-se-me com esta narrativa mínima certa notícia recentemente chegada aos meus ouvidos: o governo quer reduzir o insucesso escolar no ensino básico determinando um limite (pré-quantificado) de alunos que poderão ser retidos em cada ano de escolaridade.  
 Esclarecimento: eu simpatizo, naturalmente, com a ideia de combater o insucesso escolar. Costumo até dizer, a alunos, colegas e encarregados de educação, que o insucesso dos meus alunos é, em termos objectivos, o meu próprio insucesso enquanto docente. Mas o combate ao insucesso deveria significar, antes de mais, um magno esforço para elevar e aprofundar conhecimentos & competências dos alunos, e não simplesmente o reforço artificial de avaliações positivas. O sucesso conquista-se, como é bom (digno) de ver, com muito trabalho, envolvendo professores, alunos, famílias; com diversificação de estratégias, respondendo à especificidade de cada turma (e, se necessário, às características particulares de cada discente); com recursos (horas para apoio; tutorias; actividades lúdico-pedagógicas que contribuam para a estimulação e para a auto-estima dos aprendentes); com monitorização atenta e consequente da evolução de processos e resultados. Etc
 A ideia de que o insucesso escolar se resolve por decreto é uma ilusão perigosa e, convenhamos, ridícula. Espero bem que, na educação, se resista à tentação de, perante magnos e complexos problemas, se resolver tudo vendendo o sofá.

 Vila Real, 18 de Fevereiro de 2018.
 Joaquim Jorge Carvalho
 [Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 22 de Fevereiro de 2018. A imagem foi colhida, com a devida vénia, na net.]