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Número de Ondas

sexta-feira, 22 de setembro de 2017

ZONA DE PERECÍVEIS (104)



O último ano de Monsieur Burel

Passou na RTP2, no passado dia 12 de Setembro, um documentário intitulado “Mon maître d’école” (com o título “Adeus, meu professor”, em português). A francesa Émilie Chérond teve uma ideia luminosa: acompanhou, com uma câmara de filmar, o último ano de carreira do seu velho professor primário, recolhendo en passant impressões, comentários e desabafos deste seu maître, Monsieur Burel, acerca da escola, da profissão, das gentes da vila, da humanidade. A realizadora reconhece, aqui e ali, práticas pedagógicas que, no seu tempo de menina, a impressionaram já – e revê-se na cúmplice felicidade dos petizes do século XXI, por exemplo na construção de um desenho colectivo, ou na possibilidade de cada aluno recorrer livremente à “caixinha das perguntas” e questionar o docente sobre astronomia, leis, História, flatulências, superstições.
O documentário, embora reflicta a dinâmica variegada e ruidosa de uma turma de meninos e meninas em estado de ebulição contínua, compreende a lentidão própria da existência rotineira e serena, feita de repetições e de regras (formais ou tácitas). E, na verdade, não há nesta dicotomia qualquer contradição: o senhor Tempo é, por natureza, um compósito de continuidade e variação, como amplamente já nos ensinaram Bergson ou Thomas Mann (entre outros sábios).
A noção de que o velho professor cumpre o seu último ano de profissão empresta a cada gesto e a cada frase um extraordinário peso simbólico. Convenhamos: o valor da existência humana tende a inflacionar-se perante a iminência do fim a haver. Explica o senhor Burel, a dado momento, que a reforma representa “o fim de uma viagem, de uma aventura, de uma paixão”.
Pelo meio, o professor viaja com os alunos até Paris, proporcionando-lhes a primeira viagem de metro, a primeira subida à Torre Eiffel, a primeira (quiçá única) entrada no parlamento. Os alunos ajudam-no a ver a Novidade com a virgindade própria do olhar primeiro – e, entre risos e frases descontínuas, garantem a utilidade desta visita de estudo, “pois serviu para aprendermos e para nos divertirmos” (cito de cor).
É ainda o velho instituteur a fazer as honras da casa, recebendo a colega que o substituirá e apresentando-a aos alunos. (Há aqui uma coincidência poética: a nova docente está grávida, como é próprio de uma metáfora sobre o porvir).
No final, a vila despede-se, numa festa muito familiar e singela, do professor Burel. Pela primeira vez, vemo-lo chorar, de olhar assustado e triste. E eu, que tenho esta eterna doença de sofrer excessivamente com a passagem das horas, e que ainda por cima sou um Monsieur Burel perdido por Trás-os-Montes, chorei também. Adeus, senhor professor. Até já.

Vila Real, 15-09-2017.
Joaquim Jorge Carvalho
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 21-09-2017. A foto foi colhida, com a devida vénia, no site da RTP.]

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

ZONA DE PERECÍVEIS (103)


Humildade, palavras e espanto, segundo Pina

Durante o saudoso Agosto, um Amigo ofereceu-me uma prenda maravilhosa: um livro com 10 entrevistas feitas a Manuel António Pina, com o título Dito em voz alta, organizado por Sousa Dias (Coimbra, Pé de Página Editores, Lda., 2007). Por cósmica coincidência, Pina é um dos meus poetas preferidos – e o ofertante, que deixo aqui por nomear, é talvez, hoje, o maior poeta português vivo.
O livro devora-se numa tarde. Durante a leitura, costumo sublinhar o que mais me fere a atenção e o entendimento, e dei por mim a assinalar, frase sim - frase sim, as palavras do genial entrevistado. Da entrevista a Maria Augusta Silva (páginas 57-77), trago-vos algumas das ideias do poeta, que ainda me ecoam, como música, nesta ressaca do Verão.
À pergunta “Que levou para a literatura o jornalista que é?”, o escritor responde: “Jornalismo e literatura trabalham com a mesma matéria-prima, as palavras (fiz jornalismo de imprensa). No meu caso, aquilo que de mais importante o escritor terá aprendido com o jornalista foi a humildade. Um jornal, como dizem os velhos tipógrafos, serve no dia seguinte para embrulhar peixe…” Maria Augusta Silva parece estranhar tal certeza e interpela-o: “Esse é igualmente o destino da arte literária?” Pina não duvida: “Da literatura também; se não no dia seguinte, no ano seguinte ou no século seguinte, não há diferença qualitativa entre um dia ou um século. O destino de toda a literatura e de todos os escritores é esse, o esquecimento. […]”
À pergunta “Ao jornalismo que deu o escritor?”, responde: “O jornalista aprendeu com o escritor, fundamentalmente, o respeito pelas palavras. As palavras não são malas de transportar sentido, são seres vivos e volúveis, a umas pessoas dizem umas coisas e a outras coisas diferentes (e a algumas não dizem coisa absolutamente nenhuma). E se não formos capazes de manter com as palavras uma relação simultaneamente de familiaridade e de respeito, de autoridade e de amor, elas acabarão por nos arrastar pelo nariz e nos pôr a dizer o que muito bem entenderem, ou então, infelizes e amedrontadas, calar-se-ão para sempre.
Finalmente, à pergunta “Quando escreve para crianças, sai de uma idade real para reinventar o espanto?”, reage com duas perguntas e, pelo meio, uma afirmação poderosíssima em forma de dúvida: “O que é uma idade real? Talvez a única idade verdadeiramente real seja a do espanto. Que idade temos quando perdemos a faculdade do espanto senão a da morte?
Com Setembro, regressou o ruído nacional – das eleições autárquicas, do orçamento para 2018, das arbitragens futebolísticas, dos processos judiciais mais conspícuos. Entro por este mês com um mal disfarçado medo, ansiando já por um novo Verão que me liberte do caos habitual das nossas vidinhas. O Inverno a haver (e a atravessar) é uma espécie de casulo triste, no interior do qual não bem vivo, apenas duro. Conto com Manuel António Pina e outros sábios para me trazerem (ou anunciarem) alguma possibilidade de Sol.

Coimbra, 09 de Setembro de 2017.
Joaquim Jorge Carvalho
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 14-09-2017.]

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

ZONA DE PERECÍVEIS (102)




Cavaco ex-tudo, Cavaco ex-nada 

O ressurgimento de Cavaco Silva trouxe-me à memória cenas tragicómicas do anterior regime: Salazar, já destituído da presidência do Conselho, falava com ex-subordinados e dava ordens como se ainda mandasse – e, por secreto medo ou piedade pura, os interlocutores do santacombadense alinhavam na paródia. 
 A mui comentada sanha cavaquista não surpreende, na verdade, quer no ataque à esquerda, quer no asco pelo seu sucessor à presidência, Marcelo Rebelo de Sousa. Tão-pouco espanta o seu desprezo pelas ideologias. Detenhamo-nos em cada uma das situações. 
 A forma – atabalhoada – como Cavaco misturou a expressão “revolução socialista” com referências ao governo de António Costa (sem nunca usar nomes, para não fugir ao habitual) decorre da desilusão mortal que é, para si, ver o sucesso económico de um projecto em tudo contrário ao que ele defendia. Previsão: no dia em que a situação piore, dirá com o sorriso dos totobolistas de 2ª Feira à noite: “Eu avisei…” 
 A crítica – mal velada – a Marcelo é Cavaco em todo o seu funéreo esplendor: aflige-o que um homem culto, descomplexado e com mundo seja tão conspicuamente apreciado pelos portugueses (à esquerda e à direita). Para cúmulo, o Professor Aníbal tem a noção de que os seus dois mandatos são vistos pelos compatriotas como um parênteses tacanho e triste da nossa História recente. Toma essa ingratidão como uma ofensa à sua pessoa e, à falta de melhor argumento, culpa quem, pelo humanismo e pela inteligência da sua intervenção, concita a admiração de ricos, pobres e remediados. Chama-lhe verborreia. Enfim, o homem não perdoa a Marcelo que seja tão melhor presidente do que ele foi. 
 Na “Universidade de Verão” do PSD (deixo a outros a glosa desta designação ridícula), Cavaco defendeu a inutilidade das ideologias. Para um tecnocrata sem conteúdo (cultural, político, humanista), a retórica bate certo com o que dele já sabíamos. Este foi o homem que se doutorou em Inglaterra, antes do 25 de Abril de 1974, e não se deu conta (segundo se sabe) de que em Portugal existia então uma ditadura; o democrata que não sentiu necessidade de se indignar perante a censura, a Pide, as eleições viciadas, a miséria social; o político que passou a vida a acusar os adversários e os correligionários mais brilhantes de serem “políticos”. A sua aversão tout court a ideologias entronca na sua própria vacuidade de homem sem o sentido da utopia, sem sonhos genesíacos, sem o atrevimento visionário dos grandes estadistas. Hoje, a sua irrelevância justifica mais a piedade do que os vitupérios. 
O cronista de Zona de Perecíveis deseja saúde e longa vida ao cidadão Aníbal Cavaco Silva, e lamenta que ninguém o tenha informado ainda do seu falecimento político. Que descanse em paz. 

Coimbra, 04 de Setembro de 2017. 
Joaquim Jorge Carvalho
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 07-09-2017.A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.topimagem.com.]

sábado, 2 de setembro de 2017

Imagens do quarto do meio (para a VL, que faz anos)


“O quarto do meio” – é assim que chamamos à divisão coimbrinha que está entre o quarto dos Pais e o quarto da Filha. É lá que se encontra grande parte das nossas fotos de família, em papel, à antiga: por ruas de Coimbra, de Machico, de Ribeira de Pena; em viagens, em férias, celebrando o Natal.
Fui ao quarto do meio e juntei quatro fotos. Há uma em que aparece a formosíssima Mãe, MP, e a Novidade-para-sempre, dita “a menina” (então com um ano, talvez). Há outras três que datam, salvo erro, de 1997, incluindo uma em que celebramos o aniversário da amada cria, no pátio da Avó Fina, no exacto dia de 02 de setembro de 1997.
É bonita aquela em que estamos no Piquinho, Machico, descendo para “a vila” (como ainda se diz por lá), na companhia do Mestre João, uma espécie de santo que nunca morreu de nós.
Gosto em particular daquela em que a menina se me agarra ao braço direito. É isso que lhe ofereço desde que a vida me abençoou com a sua chegada: o braço com que escrevo, com que a protejo, com que a seguro, com que a aviso ou repreendo, com que a felicito ou a acaricio.
Vanovska, gostava que, mesmo depois de um dia eu partir, me visses-sentisses sempre como o teu braço direito.
Eu e a tua Mãe gostamos muito da Família, dos Amigos, da Literatura e do Sporting. Mas tu é que és mesmo o nosso grande amor!
Vida longa e felicidades, miúda!

Coimbra, 02 de Setembro de 2017.
Joaquim Jorge Carvalho

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

ZONA DE PERECÍVEIS (101)



Agosto (in memoriam)

Uma vez por ano, a vida autoriza-me o regresso ao aconchego da minha cidade natal. Por trinta seguidos dias, sou abençoado com a companhia de Coimbra-Mãe, ando pelas ruas antigas com a felicidade de um soldado de visita a casa, em licença prolongada, e rapidamente abraço os bocadinhos novos de paisagem impostos pelo progresso – um Café, um hipermercado, um quiosque, uma oficina de reparação de automóveis, um jardim, um prédio, um auditório a estrear, uma empresa ligada a medicamentos, um centro lúdico (para crianças & pais), súbitas árvores, semáforos que um velho vizinho reclamava há anos.
O problema desta felicidade, como séculos de literatura e de aforismos nos ensinam, está em que se acaba. De forma discreta, o cínico Outono envia mensagens: que é senão isso esta aragem mais fria à hora do jantar?
A minha existência não se contabiliza por anos civis, e talvez por isso me signifique tão pouco aquele ritual das doze badaladas no fim de Dezembro. É a cada ocaso estival que me acrescento de velhice e da ideia - sempre absurda - de deslizarmos, sem remédio, para a morte (Marguerite Duras: “La vie est un chemin vers la mort.”)
Mais do que o recomeço da lida profissional, custa-me a partida de Coimbra. Como se as obrigações me arrancassem dos braços da amada Cidade-Mãe. Há, convenhamos, uma profunda ironia naquela espécie de eufemismo que arranjaram para o verbo “trabalhar”: ganhar a vida. Ganhar, senhores?! 
Mas isto que vos digo é decerto pouco (quase nada) se comparado à dor hiperbólica de quem labuta fora do seu país. Despedi-me, ainda agora, de tio e tia, emigrantes há vinte anos na Alemanha, ambos sexagenários já. Falta-lhes um ano e três meses para a reforma e, claro, o regresso final. Despedem-se com as costumeiras lágrimas e piadas de circunstância. Também há Morte nas despedidas, mesmo que a conspícua Cabra não venha já.
Ainda não me passou a tão grande tristeza de me, neles, despedir do Verão, murmurando votos de para o ano estarmos todos ainda por cá. Mas o objectivo está definido: durar até ao fim do iminente-eminente Inverno, e depois voltar a viver.


Coimbra, 28 de Agosto de 2017.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.travel_in.pt.]

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

ZONA DE PERECÍVEIS (100)


Escutar para ver

Cresci a ouvir rádio. Na casa da minha infância, a manhã anunciava-se pelo odor a café com leite e o som da emissora nacional, minutos antes de a minha Mãe nos avisar das horas e ameaçar com um balde de água. 
Claro que a televisão me foi também importante. Tenho 54 anos, sou da geração que viu a Pipi das meias altas, o Vickie, o Bonanza, o Tarzan, o festival da canção, o anúncio (pelo grande Fialho Gouveia) do 25 de Abril, o crescimento da democracia (a preto & branco e a cores). Mas a rádio conservou para sempre um misterioso encanto, que nasce sobretudo – creio – do seu lado não corpóreo, invisível, aquém ou além das vozes e da música.
Em grande medida, a rádio é um meio de comunicação que se aproxima da literatura. O leitor recebe do enunciado alguns sinais, algumas pistas – mas depende da sua própria leitura a realização mais profunda da comunicação. Estamos todos cientes de que o livro, na maior parte dos casos, é mais interessante do que o filme feito a partir do livro, não é verdade? Neste último caso, o que vemos é apenas o que o realizador viu na história lida; num livro, ainda virgem de filme, todos os acontecimentos, cenários e rostos são os que o nosso próprio cérebro fabricou, a melodia emocional com que o nosso próprio coração reagiu aos estímulos da escrita.
A rádio, pois: como esquecer a rádio-novela Simplesmente Maria, o ruído de portas abrindo-se ou fechando-se, os passos de uma mulher caminhando à chuva, um carro derrapando rumo à tragédia? Por isso me pareceu sempre falacioso o axioma do “ver para crer” atribuído a S. Tomé. Não poucas vezes, eu vi mais claramente visto na rádio que na televisão um certo golo de Manuel Fernandes, numa tarde em que, percebido do meu quarto coimbrinha, o Jamor era bastante mais espectacular do que é se cruamente visto com os olhos.
No JN de 03-08-2017, vinha a notícia de um assassinato particularmente terrível: um jovem de 19 anos matou o seu irmão de 23, após discussão fútil. A mãe de ambos, invisual desde o nascimento do segundo filho (por complicações inerentes ao parto), ouviu a querela, os gritos e a consumação do fim. Uma velha tia saiu-se com esta exegese mística: Deus, omnisciente e misericordioso, pressabendo o que haveria de passar-se 19 anos depois de a mulher dar à luz o assassino a haver, cegara a parturiente, poupando-a ao pesadelo de ver o crime.
A mim, que sei do poder da rádio, não me convence a teoria. Aquela pobre mãe, senhores, viu-sentiu tudo como se não fosse cega, quiçá até mais profundamente do que se pudesse ver com os seus olhos.

Coimbra, 03 de Agosto de 2017.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.commons.wikimedia.org.]

Infância


O tempo da minha infância,
Senhor Gasset,
Não tinha circunstância
Nem tinha de ter.
Não cabia na filosofia
Nem tinha de caber.
Era sempre o mesmo Dia
O mesmo estar e ser.

Tocha, 09 de Agosto de 2017.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.imagui.com.]

domingo, 6 de agosto de 2017

ZONA DE PERECÍVEIS (99)


Tempo de qualidade

A meio da corrida higiénica, na sossegada periferia de Coimbra, avisto um pequeno campo de jogos, cercado por uma frágil rede. Sobre o piso de cimento, um homem já maduro brinca com um petiz de 7-8 anos, cada um lançando, à vez, a bola para o cesto de basquetebol do lado da estrada. São, talvez, sete horas da tarde. Ainda há luz e calor bastantes. Passo por esta cena à velocidade de quarentão tranquilo e pega-se-me ao ouvido um coro de gargalhadas: o riso do provável pai misturando-se com o riso do provável filho, gaiatos ambos.
Os anglófonos têm para este tempo – aparentemente inútil – que concedemos ao convívio com família ou amigos, à roda de uma mesa, de uma bola, de um animal de estimação, etc., quality time [tempo de qualidade, em tradução literal].
Não investir nestes bocadinhos do nosso relógio comum é, na maioria das vezes, triste e trágico. Os laços que, em adultos, sobrevivem à (inevitável) perda da inocência quase sempre decorrem da memória ternurenta e grata de certos instantes preciosos. Pais e mães, mesmo sem de tal terem consciência, oferecem-se momentos de felicidade pura e gratuita e garantem, sem disso terem consciência, a eterna proximidade das crias. 
A minha Filha e eu partilhámos, desde muito cedo, o amor pelos livros e pelo humor. Um dia perguntou-me quem era Deus. Eu levantei os olhos do meu Vergílio Ferreira e respondi-lhe: “É como o pai. Mas mais alto e com barba.” E ela riu-se com gosto, antes de regressar ao volume de Flores para Crianças que, há pouco, eu a mãe lhe compráramos.
Tenho saudades dessas horas (ou minutos, ou segundos) em que existimos simultaneamente, compinchas da praia, do Café, da livraria, do campo de jogos, de viagens, de passeios à beira do Mondego. Foi então, nessa nossa cumplicidade tão querida (extensiva à minha mulher, claro, para sempre a melhor amiga daquela menina), que construímos a delicada Casa da nossa confiança, co-inquilinos da cultura, da liberdade, da tolerância, do Sporting, da literatura, da família, do mar, dos amigos. Aqui ficámos a morar juntos, ainda que eventualmente afastados no mapa desmancha-prazeres da realidade.
Ao escrever “Quando eu morrer voltarei para buscar / Os instantes que não vivi junto do mar”, era de tempo essencial e valioso que a preclara Sophia Andresen falava. De tempo de qualidade.
É demasiado curta a vida para nos satisfazermos de amor, perdoai o clichê. E demasiado curta é uma crónica para dizer a urgência de não perdermos tempo. Mas não é com a bruta pressa que resolvemos este consabido problema de morrermos todos demasiado cedo. É, antes, digo eu, aproveitando cada oportunidade para estarmos com quem amamos, aceitando de cada dia o Sol possível, reclamando de cada segundo o digno sumo que urge beber antes que fuja ou se estrague. De preferência, ó contemporâneos e vindouros, com a sábia despreocupação das crianças, talvez num entardecer qualquer, na periferia do caos adulto a que chamamos sociedade.
A eternidade é o que para sempre fica. Coisa gasosa como os sonhos, fresca como água da fonte e saborosa como, digamos, uma meloa portuguesa. É a “memória do amor”, como narratologicamente chamou Agustina à ideia de ressuscitar os instantes que valeram (valem) mesmo a pena. Coisa aparentemente inútil, eu sei, como estarmos uma inteira tarde a olhar para o mar.

Coimbra, 30 de Julho de 2017.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.welovestar.blogspot.com.]

terça-feira, 1 de agosto de 2017

ZONA DE PERECÍVEIS (98)











Sobre um romance em estado de sonho

A noção de que estamos perante uma grande narrativa não resulta exclusivamente de uma avaliação racional. A própria natureza estética do fenómeno implica, à partida, uma dimensão emocional, frequentemente misteriosa e desconcertante. Tenho notado que, até para falar da beleza de um certo texto (ou de uma pintura, ou de uma música, ou de um filme), tendemos a convocar, para o nosso testemunho de admiração, certa linguagem poética, com recurso - talvez involuntário - a adjectivação expressiva, a comparações e metáforas incendiárias, a hipérboles que alcancem, pelo instrumental exagero, a exactidão apetecida.
Um leitor experimentado, coleccionador de romances magistrais, acaba por aperceber-se de um conjunto de características que, regra geral, estão presentes em cada livro amado. O problema, quando o leitor é também, por vocação ou ambição, escritor, está em contar as suas próprias histórias concedendo-lhes o brilho genial das obras maiores. Ainda que conheça uma espécie de receita para a escrita a haver, confirma depois, melancolicamente, que a grande literatura não resulta de preceitos ou processos industriais. De certa forma, como disse Sebastião da Gama ao falar de aulas, a coisa acontece.
Habituei-me à ideia de que os romances maiores têm de comum a edificação de um mui coerente mundo, semelhante ou não ao da nossa realidade comezinha. Este mundo funciona com regras – e cria nos leitores a ilusão da vida verdadeira a acontecer. Como defendia Eco (com outras palavras), sentimos o tempo a passar enquanto lemos. Isto percebe-se bem em obras como Os Maias, de Eça, Cem anos de solidão, de Gabriel García Márquez, Memórias de Adriano, de Yourcenar, As pupilas do senhor reitor, de Júlio Dinis, David Copperfield, de Dickens, A Montanha Mágica, de Thomas Mann. Ponto de partida: na basse e ao redor da intriga (do enredo), existe um contexto referencial estável, feito de repetição e de pressuposta normalidade, isto é, a diegese.
Quem não tem paciência ou jeito para construir boas (verosímeis) diegeses, deve limitar-se à – também nobre e bela – arte do conto.
Na minha pobre carreira literária, tenho viajado por todos os modos – narrativa, poesia, teatro, crónica. Mas sei muito bem que a casa principal onde verdadeiramente quero morar é a narrativa. Desde sempre, até a dormir me acontece imaginar ou (re)criar histórias. Dizem-me, às vezes, que sou um bom contador. Isso não (me) chega, infelizmente. Confesso: ando há uns bons trinta anos a ver se me acontece enfim a diegese ideal para o romance que sonhei meu. Até ver, hélas, com mais paciência que sucesso. Mas, tirando o facto de isto me ser insuportável, nenhuma gravidade há, senhores, a reportar-vos.

Coimbra, 22 de Julho de 2017.
Joaquim Jorge Carvalho

sexta-feira, 21 de julho de 2017

ZONA DE PERECÍVEIS (97)



O paiol da hipocrisia

 O (alegado) roubo de material, em Tancos, teve o condão de pôr a falar de tropa alguns tudólogos que, mal sabendo a diferença entre à vontade, firme e sentido, lá puseram a marchar as respectivas (más) línguas. Facilmente se percebeu, na sanha geral dos comentários, que o episódio lhes pareceu sobretudo uma maravilhosa oportunidade para malhar no ministro da Defesa e, mais concretamente, no governo que por agora manda em Portugal.
 Sobre a guerra partidária, não tenho, por estes dias, paciência para escrever. Mas da mesma maneira que a alergia do PS às demissões me faz sorrir, não consigo evitar uma profunda gargalhada quando ouço a direita clamar por cabeças ministeriais. A mesma direita que apenas estremeceu perante as notícias dos impostos por pagar de Passos Coelho (e aquela história, muito mal esclarecida, da “exclusividade” como deputado, que o deputado não queria por estar a trabalhar para uma empresa, mas que não o impediu de, no final do mandato, pedir um chorudo subsídio por, afinal, o trabalho fora da assembleia ter sido realizado carinhosamente pro bono). Ainda se lembram? A mesma direita que compreendeu, comovida e doce, a revogada irrevogabilidade do ministro Portas (ou a bondade das suas explicações submarinas). A mesma direita que aguentou até ao limite (ou para lá do limite) o escândalo do cábula Relvas, os tiros no pé de Machete, as previsões erradas de Gaspar, o caos trazido aos tribunais por Paula Teixeira da Cruz, os swaps mal explicados de Maria Luís. 
 Quando eu estive na tropa, durante a década de 80 do século XX, em plena “semana de campo”, fui contemporâneo de um instruendo meio maluco (que veio a ser dispensado por motivos – adivinhai – psiquiátricos). Certa manhã, após o seu serviço de vigia, veio queixar-se ao comandante de que uns brincalhões do seu pelotão lhe haviam roubado e escondido a G3. O comandante, apoplético, quis logo saber quem fora o autor dessa enormidade. O doido respondeu-lhe: “Sei lá. Eu estava a dormir!” 
 A arma veio a ser encontrada, mas ninguém se acusou – e, em resultado desse silêncio, todo o pelotão (creio) foi castigado. A ninguém ocorreu culpar o comandante da unidade ou o ministro da Defesa de então pelo sucedido.
 Estou convencido de que o mais perigoso inimigo da tropa é o relaxamento que acontece em situações de paz. A inexistência de conflitos iminentes tende a adormecer os homens e as instituições. É evidente que a instituição castrense tem de responder perante o Estado, quando há problemas como o de Tancos. Ao poder político, que representa o Estado, caberá perceber o que se passou. Depois, em articulação com as forças armadas, punir os culpados e prevenir quaisquer outros (futuros) problemas. Mas a única demissão admissível, neste contexto, é a da fuga cobarde e irresponsável.
 O bruá hipócrita que se levantou, entre civis e militares carregadinhos de demagogia e de interesses (mal) disfarçados, compreendeu choros à roda do “desinvestimento na defesa”, da falta de efectivos e da ausência de videovigilância. Mas nenhum militar que se preze explica o (alegado) roubo de armas com faltas de dinheiro, de tropas ou de câmaras de filmar. Sabem bem que ali houve, de certeza, distracção, desconcentração, relaxamento.
 A paz prolongada talvez dificulte o cumprimento cuidadoso e focado dos mais básicos deveres militares. Ora, convenhamos: não há outra maneira de as forças armadas desempenharem bem a sua função senão agir como se houvesse guerra, mesmo quando (felizmente) não há.

Vila Real, 16 de Julho de 2017.
Joaquim Jorge Carvalho
 [A imagem (da BD “Recruta Zero”) foi colhida, com a devida vénia, na net.]

sexta-feira, 14 de julho de 2017

ZONA DE PERECÍVEIS (96)




Crónica de estar cansado

Da janela do quarto transmontano onde durmo há cerca de quinze anos, avista-se uma avenida bonita, dita “da Noruega” em homenagem aos nórdicos que, no pós-25 de Abril, ajudaram a custear o Centro de Saúde local. É por aí que me entra o Sol de cada novo dia, e também a vozearia viva dos ribeirapenenses, ou, no Inverno, os gemidos do vento e o choro da chuva.
Há poucos dias, à hora de deitar, chegou-me dessa janela um ruído semelhante ao de dedos batendo no vidro. Curioso, subi a persiana e apanhei um dos maiores sustos da minha vida: do lado de fora, pousada no parapeito exterior, olhando-me seraficamente, estava uma pomba. Não sei porquê, pareceu-me uma pomba velha. Soltei um palavrão cobarde e chamei a minha mulher para que visse o que eu via.
Ficámos ambos, nos segundos devenientes, sob o olhar triste da ave. Depois, eu bati no vidro, para que ela voasse dali pra fora e se concluísse tamanha estranheza nocturna. O animal estremeceu um pouco, mas não voou. Tentei assustá-lo com a descida da persiana. Em vão. Lá acabámos por nos conformar com aquela vizinhança misteriosa. Mas fiquei, por bastantes minutos, de olhos abertos na escuridão, a pensar naquilo – e quando a minha mulher murmurou “Que estranho…”, não pude deixar de sorrir, avaliando o milagre que era estarmos ambos tão preocupados com uma pomba triste. Disse-lhe: “Se calhar, está apenas doente…”.
De manhã, a ave já lá não estava. Não caíra morta na varanda sob a janela, nem na rua. Talvez tivesse continuado a sua saga viajante por outras casas. O parapeito exterior da fenestra ficou pejado de excrementos e de algumas penas.
Ultrapassada a possibilidade (vulgar e bruta) de esta história não significar coisa alguma, interrogo-me: que pode significar esta história verdadeira? Eu gosto de pensar, como diz Antonio Skármeta (pela voz de Pablo Neruda falando com o seu carteiro da Isla Negra), que a linguagem da Natureza é o que a Natureza nos mostra: o mar e as suas marés são a vida e as suas marés; a noite e o dia são a nossa morte e a nossa ressurreição; as estações do ano são as faces do senhor Tempo; um rio correndo é o humano caminho entre o princípio e o fim (ou entre o nada e o tudo). Etc.
Aquela pomba veio dizer-me o quê? (Parênteses: não me apetece aqui a dimensão da galhofa – era fácil associar a pomba ao Espírito Santo do catecismo e a sua tristeza à falência de um banco de más contas.)
E se fosse a Paz que, por uma noite, desistiu de voar? E se fosse o Espírito Santo original que me trazia um abraço (triste) de quem me morreu? E se fosse Deus, até, muito cansado de existir ou de não existir? E se a pomba fosse eu próprio, depois do telejornal, cansado de tudo?

Coimbra, 08 de Julho de 2017.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.thedodo.com.]

terça-feira, 11 de julho de 2017

ZONA DE PERECÍVEIS (95)

Sobre o Teatro

Alguém, algures, há muito ou pouco tempo, escreveu uma peça de teatro. Entre a imaginação de quem escreve e o papel propriamente dito, viajam pessoas-personagens, coisas de mercearia e de alma, emoções, ideias, gestos, amores, vozes, cenários, luzes e sombras, sons de vento ou tempestade, talvez música: um mundo.
Eu leio essa peça. Surpreendo-me, rio-me, aborreço-me, comovo-me, indigno-me, tomo as dores de personagens-pessoas em papel-carne, amo-as ou odeio-as, aprendo (ou reaprendo) a olhar para a raça humana, vejo até, eventualmente, o que somos, o que sou.
Enceno essa peça. Quero ver no palco as pessoas-personagens-pessoas que me perturbaram, me encantaram, me desafiaram a mais profundamente perceber o que se passa, entre cada respiração e cada passo, comigo e com a vulgar humanidade que em conjunto somos. Preciso que os actores (escolhidos por mim) encarnem dignamente as palavras que li-senti no texto escrito por alguém, algures, há muito ou pouco tempo. Quero construir os exactos cenários para a peça, de acordo com as instruções didascálicas ou as sugestões psicadélicas concomitantes à leitura. Pretendo oferecer aos meus contemporâneos – ao público – um mundo novo, quiçá em forma de interrogação, ou de novidade, ou de inferno, ou de abrigo.
Entre alguém que há muito ou pouco tempo escreveu uma peça de teatro e a minha circunstância encenadora, há um fenómeno de comunicação não apenas cerebral, mas sobretudo estética. O nosso encontro resulta fundamentalmente de duas dimensões: amor e beleza. É dessa (e nessa) cumplicidade que nasce o espectáculo teatral. Imagem possível: o fósforo risca a lixa e incendeia-se. O espectáculo é o fogo enquanto dura (como, em outros voos, escreveu Vinicius), tanto faz que o dramaturgo seja o fósforo ou a lixa da metáfora, e o encenador idem.
A minha paixão pelo teatro começou na infância. Há, pelo menos, 30 anos que acrescento à minha missão de apóstolo da língua e da literatura a dinamização de clubes de teatro (e, na última década, de cinema). Não conheço melhor território para desenvolver, nos nossos jovens, o gosto pelo trabalho em equipa. O processo (feito de repetições, de correcção de erros, de interacção produtiva) tende a consolidar o princípio, prático e filosófico, de que o brilho do outro nos ajuda a brilhar a nós próprios, e de que a beleza geral do espectáculo depende de numerosos e distintos contributos de cada um.
Acabei de escrever o relatório que, na condição de coordenador do Clube de Teatro & Cinema da minha escola, tinha de apresentar no final do ano lectivo. No documento, recordei os objectivos deste espaço extra-curricular: contribuir para a formação cultural dos alunos; desenvolver o conhecimento e o gosto dos alunos na área da expressão dramática; cultivar o sentido estético e crítico dos alunos face a espectáculos de cariz performativo; contribuir para a auto e a heterodescoberta de talentos e capacidades, reforçando a autoestima individual e grupal; estimular a leitura de obras literárias de género dramático (sobretudo da Língua Portuguesa); treinar activamente a memória; desenvolver e sistematizar o trabalho em grupo; desenvolver competências essenciais na área da comunicação (no domínio da escrita, da oralidade e da expressão corporal); articular áreas do saber (Literatura, História, Ciências) com áreas eminentemente técnico-tecnológicas e artísticas (uso do computador; recurso a luz, som, desenho, pintura, música, dança); enriquecer o nosso plano de actividades.
Faltou-me dizer que o teatro é, muito para além das semanas de ensaios e dos trinta-quarenta minutos de récita, o que fica na cúmplice memória de público e actores: o termos estado juntos, naquele cósmico instante em que nos rimos ou nos comovemos - como se todos, ali, naquele momento, fôssemos a inteira humanidade.

Coimbra, 01 de Julho de 2017.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem é a de um cartaz anunciando um espectáculo a que pude assistir ao vivo, em Coimbra (no Teatro Avenida), há muitos anos. Fui então gratamente atropelado pelo belo texto de Eduardo de Filippo, Nápoles Milionária. O cartaz da Companhia Teatral do Chiado reproduz o original, datado de 1945. Na versão portuguesa, brilhava sobretudo o génio inesquecível do actor Mário Viegas.]

sábado, 1 de julho de 2017

ZONA DE PERECÍVEIS (94)











Recordações do Sol

Fui espectador (distraído) de um debate recente sobre os problemas do ensino superior. Confesso-vos: o maior de todos, visto o fenómeno das profundezas do meu egoísmo, foi (é) a minha Filha ter saído de casa para estudar em Coimbra.
Tenho para sempre na memória aquele rosto à janela rodoviária dizendo-nos adeus, e o nosso desespero sorridente retribuindo o gesto, enquanto a camioneta se afastava. Como náufragos, órfãos da “menina”, voltámos a casa, pressentindo que a vida não mais seria a mesma.
Passou a estar demasiadamente arrumado e quieto o quarto da nossa Filha. E foi por esse tempo que, na parede exterior da divisão vaga, um casal de andorinhas fez o seu ninho. Apressei-me a fotografar a novidade e a enviar as imagens para a dona dos aposentos. Ela própria, ao fim-de-semana, se encantou com a escolha das aves e participou comigo na exegese possível desse tácito poema.
Agora, a nossa “menina” é já uma senhora e tem a sua vida muito fora do radar progenitor. Licenciou-se. Trabalhou em Coimbra, no Porto, em Lisboa. Tem conta bancária, despesas, prazos, cumplicidades & adversidades só dela, mundo próprio. Nós, ora discretamente, ora de forma desajeitada, obrigamo-la a dizer se está tudo bem, se já jantou, se já foi ao médico, se já fez as pazes com sabemos lá quem, se precisa de ajuda. Só adormecemos depois da certeza de ela estar bem, como há vinte e tantos anos, quando vínhamos do hospital pedriático, cheios de angústia e medicamentos para uma gastroenterite infantil.
Quando coincidimos em casa, num Sábado qualquer, sinto uma quase indizível sensação de completude cósmica, como se, por horas, tudo-mesmo-tudo estivesse certo.
Aprecio agora, ainda mais, o regresso das andorinhas. Elas trazem no bico as primeiras sílabas da Primavera e, sem cerimónia, ocupam o seu lugar na nossa casa.
O problema de sofrermos desta doença chamada poesia está em antecipadamente sabermos que partirão, que o ninho vivo volverá a ninho vazio. Ora, quando as aves anunciadoras do Sol se afastam do lugar de onde as vemos-vimos o que fica? Resposta: o tê-las visto; o tê-las tido connosco enquanto foi possível. Não há, senhores, outra eternidade.
Já (me) tinha explicado esta estima e esta gratidão pela memória, há uns anos, nuns versos que compus para uma sessão (escolar) de poesia e teatro. Recordo-vo-los:

Deixa lá, não fiques triste:
O voo que já não vês
Pode ser voo outra vez
Se te lembrares do que viste.

Coimbra, 24 de Junho de 2017.
Joaquim Jorge Carvalho
[Fotos JJC - Ribeira de Pena, 06 de Junho de 2017.]