Bússola do Muito Mar

Endereço para achamento

jjorgecarvalho@hotmail.com

Número de Ondas

sexta-feira, 21 de julho de 2017

ZONA DE PERECÍVEIS (96)




O paiol da hipocrisia

 O (alegado) roubo de material, em Tancos, teve o condão de pôr a falar de tropa alguns tudólogos que, mal sabendo a diferença entre à vontade, firme e sentido, lá puseram a marchar as respectivas (más) línguas. Facilmente se percebeu, na sanha geral dos comentários, que o episódio lhes pareceu sobretudo uma maravilhosa oportunidade para malhar no ministro da Defesa e, mais concretamente, no governo que por agora manda em Portugal.
 Sobre a guerra partidária, não tenho, por estes dias, paciência para escrever. Mas da mesma maneira que a alergia do PS às demissões me faz sorrir, não consigo evitar uma profunda gargalhada quando ouço a direita clamar por cabeças ministeriais. A mesma direita que apenas estremeceu perante as notícias dos impostos por pagar de Passos Coelho (e aquela história, muito mal esclarecida, da “exclusividade” como deputado, que o deputado não queria por estar a trabalhar para uma empresa, mas que não o impediu de, no final do mandato, pedir um chorudo subsídio por, afinal, o trabalho fora da assembleia ter sido realizado carinhosamente pro bono). Ainda se lembram? A mesma direita que compreendeu, comovida e doce, a revogada irrevogabilidade do ministro Portas (ou a bondade das suas explicações submarinas). A mesma direita que aguentou até ao limite (ou para lá do limite) o escândalo do cábula Relvas, os tiros no pé de Machete, as previsões erradas de Gaspar, o caos trazido aos tribunais por Paula Teixeira da Cruz, os swaps mal explicados de Maria Luís. 
 Quando eu estive na tropa, durante a década de 80 do século XX, em plena “semana de campo”, fui contemporâneo de um instruendo meio maluco (que veio a ser dispensado por motivos – adivinhai – psiquiátricos). Certa manhã, após o seu serviço de vigia, veio queixar-se ao comandante de que uns brincalhões do seu pelotão lhe haviam roubado e escondido a G3. O comandante, apoplético, quis logo saber quem fora o autor dessa enormidade. O doido respondeu-lhe: “Sei lá. Eu estava a dormir!” 
 A arma veio a ser encontrada, mas ninguém se acusou – e, em resultado desse silêncio, todo o pelotão (creio) foi castigado. A ninguém ocorreu culpar o comandante da unidade ou o ministro da Defesa de então pelo sucedido.
 Estou convencido de que o mais perigoso inimigo da tropa é o relaxamento que acontece em situações de paz. A inexistência de conflitos iminentes tende a adormecer os homens e as instituições. É evidente que a instituição castrense tem de responder perante o Estado, quando há problemas como o de Tancos. Ao poder político, que representa o Estado, caberá perceber o que se passou. Depois, em articulação com as forças armadas, punir os culpados e prevenir quaisquer outros (futuros) problemas. Mas a única demissão admissível, neste contexto, é a da fuga cobarde e irresponsável.
 O bruá hipócrita que se levantou, entre civis e militares carregadinhos de demagogia e de interesses (mal) disfarçados, compreendeu choros à roda do “desinvestimento na defesa”, da falta de efectivos e da ausência de videovigilância. Mas nenhum militar que se preze explica o (alegado) roubo de armas com faltas de dinheiro, de tropas ou de câmaras de filmar. Sabem bem que ali houve, de certeza, distracção, desconcentração, relaxamento.
 A paz prolongada talvez dificulte o cumprimento cuidadoso e focado dos mais básicos deveres militares. Ora, convenhamos: não há outra maneira de as forças armadas desempenharem bem a sua função senão agir como se houvesse guerra, mesmo quando (felizmente) não há.

Vila Real, 16 de Julho de 2017.
Joaquim Jorge Carvalho
 [A imagem (da BD “Recruta Zero”) foi colhida, com a devida vénia, na net.]

sexta-feira, 14 de julho de 2017

ZONA DE PERECÍVEIS (96)




Crónica de estar cansado

Da janela do quarto transmontano onde durmo há cerca de quinze anos, avista-se uma avenida bonita, dita “da Noruega” em homenagem aos nórdicos que, no pós-25 de Abril, ajudaram a custear o Centro de Saúde local. É por aí que me entra o Sol de cada novo dia, e também a vozearia viva dos ribeirapenenses, ou, no Inverno, os gemidos do vento e o choro da chuva.
Há poucos dias, à hora de deitar, chegou-me dessa janela um ruído semelhante ao de dedos batendo no vidro. Curioso, subi a persiana e apanhei um dos maiores sustos da minha vida: do lado de fora, pousada no parapeito exterior, olhando-me seraficamente, estava uma pomba. Não sei porquê, pareceu-me uma pomba velha. Soltei um palavrão cobarde e chamei a minha mulher para que visse o que eu via.
Ficámos ambos, nos segundos devenientes, sob o olhar triste da ave. Depois, eu bati no vidro, para que ela voasse dali pra fora e se concluísse tamanha estranheza nocturna. O animal estremeceu um pouco, mas não voou. Tentei assustá-lo com a descida da persiana. Em vão. Lá acabámos por nos conformar com aquela vizinhança misteriosa. Mas fiquei, por bastantes minutos, de olhos abertos na escuridão, a pensar naquilo – e quando a minha mulher murmurou “Que estranho…”, não pude deixar de sorrir, avaliando o milagre que era estarmos ambos tão preocupados com uma pomba triste. Disse-lhe: “Se calhar, está apenas doente…”.
De manhã, a ave já lá não estava. Não caíra morta na varanda sob a janela, nem na rua. Talvez tivesse continuado a sua saga viajante por outras casas. O parapeito exterior da fenestra ficou pejado de excrementos e de algumas penas.
Ultrapassada a possibilidade (vulgar e bruta) de esta história não significar coisa alguma, interrogo-me: que pode significar esta história verdadeira? Eu gosto de pensar, como diz Antonio Skármeta (pela voz de Pablo Neruda falando com o seu carteiro da Isla Negra), que a linguagem da Natureza é o que a Natureza nos mostra: o mar e as suas marés são a vida e as suas marés; a noite e o dia são a nossa morte e a nossa ressurreição; as estações do ano são as faces do senhor Tempo; um rio correndo é o humano caminho entre o princípio e o fim (ou entre o nada e o tudo). Etc.
Aquela pomba veio dizer-me o quê? (Parênteses: não me apetece aqui a dimensão da galhofa – era fácil associar a pomba ao Espírito Santo do catecismo e a sua tristeza à falência de um banco de más contas.)
E se fosse a Paz que, por uma noite, desistiu de voar? E se fosse o Espírito Santo original que me trazia um abraço (triste) de quem me morreu? E se fosse Deus, até, muito cansado de existir ou de não existir? E se a pomba fosse eu próprio, depois do telejornal, cansado de tudo?

Coimbra, 08 de Julho de 2017.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.thedodo.com.]

terça-feira, 11 de julho de 2017

ZONA DE PERECÍVEIS (95)

Sobre o Teatro

Alguém, algures, há muito ou pouco tempo, escreveu uma peça de teatro. Entre a imaginação de quem escreve e o papel propriamente dito, viajam pessoas-personagens, coisas de mercearia e de alma, emoções, ideias, gestos, amores, vozes, cenários, luzes e sombras, sons de vento ou tempestade, talvez música: um mundo.
Eu leio essa peça. Surpreendo-me, rio-me, aborreço-me, comovo-me, indigno-me, tomo as dores de personagens-pessoas em papel-carne, amo-as ou odeio-as, aprendo (ou reaprendo) a olhar para a raça humana, vejo até, eventualmente, o que somos, o que sou.
Enceno essa peça. Quero ver no palco as pessoas-personagens-pessoas que me perturbaram, me encantaram, me desafiaram a mais profundamente perceber o que se passa, entre cada respiração e cada passo, comigo e com a vulgar humanidade que em conjunto somos. Preciso que os actores (escolhidos por mim) encarnem dignamente as palavras que li-senti no texto escrito por alguém, algures, há muito ou pouco tempo. Quero construir os exactos cenários para a peça, de acordo com as instruções didascálicas ou as sugestões psicadélicas concomitantes à leitura. Pretendo oferecer aos meus contemporâneos – ao público – um mundo novo, quiçá em forma de interrogação, ou de novidade, ou de inferno, ou de abrigo.
Entre alguém que há muito ou pouco tempo escreveu uma peça de teatro e a minha circunstância encenadora, há um fenómeno de comunicação não apenas cerebral, mas sobretudo estética. O nosso encontro resulta fundamentalmente de duas dimensões: amor e beleza. É dessa (e nessa) cumplicidade que nasce o espectáculo teatral. Imagem possível: o fósforo risca a lixa e incendeia-se. O espectáculo é o fogo enquanto dura (como, em outros voos, escreveu Vinicius), tanto faz que o dramaturgo seja o fósforo ou a lixa da metáfora, e o encenador idem.
A minha paixão pelo teatro começou na infância. Há, pelo menos, 30 anos que acrescento à minha missão de apóstolo da língua e da literatura a dinamização de clubes de teatro (e, na última década, de cinema). Não conheço melhor território para desenvolver, nos nossos jovens, o gosto pelo trabalho em equipa. O processo (feito de repetições, de correcção de erros, de interacção produtiva) tende a consolidar o princípio, prático e filosófico, de que o brilho do outro nos ajuda a brilhar a nós próprios, e de que a beleza geral do espectáculo depende de numerosos e distintos contributos de cada um.
Acabei de escrever o relatório que, na condição de coordenador do Clube de Teatro & Cinema da minha escola, tinha de apresentar no final do ano lectivo. No documento, recordei os objectivos deste espaço extra-curricular: contribuir para a formação cultural dos alunos; desenvolver o conhecimento e o gosto dos alunos na área da expressão dramática; cultivar o sentido estético e crítico dos alunos face a espectáculos de cariz performativo; contribuir para a auto e a heterodescoberta de talentos e capacidades, reforçando a autoestima individual e grupal; estimular a leitura de obras literárias de género dramático (sobretudo da Língua Portuguesa); treinar activamente a memória; desenvolver e sistematizar o trabalho em grupo; desenvolver competências essenciais na área da comunicação (no domínio da escrita, da oralidade e da expressão corporal); articular áreas do saber (Literatura, História, Ciências) com áreas eminentemente técnico-tecnológicas e artísticas (uso do computador; recurso a luz, som, desenho, pintura, música, dança); enriquecer o nosso plano de actividades.
Faltou-me dizer que o teatro é, muito para além das semanas de ensaios e dos trinta-quarenta minutos de récita, o que fica na cúmplice memória de público e actores: o termos estado juntos, naquele cósmico instante em que nos rimos ou nos comovemos - como se todos, ali, naquele momento, fôssemos a inteira humanidade.

Coimbra, 01 de Julho de 2017.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem é a de um cartaz anunciando um espectáculo a que pude assistir ao vivo, em Coimbra (no Teatro Avenida), há muitos anos. Fui então gratamente atropelado pelo belo texto de Eduardo de Filippo, Nápoles Milionária. O cartaz da Companhia Teatral do Chiado reproduz o original, datado de 1945. Na versão portuguesa, brilhava sobretudo o génio inesquecível do actor Mário Viegas.]

sábado, 1 de julho de 2017

ZONA DE PERECÍVEIS (94)











Recordações do Sol

Fui espectador (distraído) de um debate recente sobre os problemas do ensino superior. Confesso-vos: o maior de todos, visto o fenómeno das profundezas do meu egoísmo, foi (é) a minha Filha ter saído de casa para estudar em Coimbra.
Tenho para sempre na memória aquele rosto à janela rodoviária dizendo-nos adeus, e o nosso desespero sorridente retribuindo o gesto, enquanto a camioneta se afastava. Como náufragos, órfãos da “menina”, voltámos a casa, pressentindo que a vida não mais seria a mesma.
Passou a estar demasiadamente arrumado e quieto o quarto da nossa Filha. E foi por esse tempo que, na parede exterior da divisão vaga, um casal de andorinhas fez o seu ninho. Apressei-me a fotografar a novidade e a enviar as imagens para a dona dos aposentos. Ela própria, ao fim-de-semana, se encantou com a escolha das aves e participou comigo na exegese possível desse tácito poema.
Agora, a nossa “menina” é já uma senhora e tem a sua vida muito fora do radar progenitor. Licenciou-se. Trabalhou em Coimbra, no Porto, em Lisboa. Tem conta bancária, despesas, prazos, cumplicidades & adversidades só dela, mundo próprio. Nós, ora discretamente, ora de forma desajeitada, obrigamo-la a dizer se está tudo bem, se já jantou, se já foi ao médico, se já fez as pazes com sabemos lá quem, se precisa de ajuda. Só adormecemos depois da certeza de ela estar bem, como há vinte e tantos anos, quando vínhamos do hospital pedriático, cheios de angústia e medicamentos para uma gastroenterite infantil.
Quando coincidimos em casa, num Sábado qualquer, sinto uma quase indizível sensação de completude cósmica, como se, por horas, tudo-mesmo-tudo estivesse certo.
Aprecio agora, ainda mais, o regresso das andorinhas. Elas trazem no bico as primeiras sílabas da Primavera e, sem cerimónia, ocupam o seu lugar na nossa casa.
O problema de sofrermos desta doença chamada poesia está em antecipadamente sabermos que partirão, que o ninho vivo volverá a ninho vazio. Ora, quando as aves anunciadoras do Sol se afastam do lugar de onde as vemos-vimos o que fica? Resposta: o tê-las visto; o tê-las tido connosco enquanto foi possível. Não há, senhores, outra eternidade.
Já (me) tinha explicado esta estima e esta gratidão pela memória, há uns anos, nuns versos que compus para uma sessão (escolar) de poesia e teatro. Recordo-vo-los:

Deixa lá, não fiques triste:
O voo que já não vês
Pode ser voo outra vez
Se te lembrares do que viste.

Coimbra, 24 de Junho de 2017.
Joaquim Jorge Carvalho
[Fotos JJC - Ribeira de Pena, 06 de Junho de 2017.]

terça-feira, 27 de junho de 2017

Calor mói, beleza dói



Lembras-te, meu amor, daquele calor
Na Festa do Senhor?
Entre turistas espanholas 
(Conchitas, Saritas, Lolas)
Havia duas quase nuas 
Pelas ruas.
Um polícia de poucas falas
Sem problemas de pudor
Disse: "Cuidado com as malas!"
E elas: "Dios mio, que calor!"
Ele sofria também só de olhá-las.


Viagem entre Guimarães e Ribeira de Pena, 26 de Junho de 2017.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.maioresdequarenta.com.]

Mortal idade


Amo tanto quem amar
Que a minha alma chora
Por quem eu amo não estar
Ou poder ir-se embora.

Por  isso me dói assim
Quer a morte acontecida
Quer só a ideia de fim
Para o amor ou a vida.

Guimarães, Hospital da Luz, 26 de Junho de 2017.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem- do filme Adeus, Pai, de Luís Filipe Rocha - foi colhida, com a devida vénia, em http://www.theskykid.com.]

ZONA DE PERECÍVEIS (93)


A Beleza, depois o Inferno, depois Nada

Eu tinha escrito uma crónica leve-levezinha, que falava da Primavera e do poder lenitivo das lembranças mais lindas. Faltava só dactilografá-la (ou, como agora se diz, digitá-la) e remetê-la ao nosso jornal. Mas sucedeu, entretanto, o Inferno. Notícias em tudo semelhantes às piores das guerras, ou aos piores dos atentados terroristas caíram sobre Portugal. Sobre nós.
Conheço razoavelmente a região por onde o Diabo em forma de fogo tem andado a matar. Trabalhei, há muitos anos, em Figueiró dos Vinhos, e lembro-me da beleza que, nas viagens de e para Coimbra, nos rodeava, daquele cenário (serpenteante) de árvores, montanhas, casinhas pitorescas aqui e ali.
Confirmou-se que a beleza pode ser perigosa. Aquela tão formosa proximidade das árvores, para os automobilistas que circulam no País profundo, era (é), afinal, uma ratoeira. A mesma, aliás, que há naquelas casas (ou povoações) vizinhas da floresta, sujeitas à destruição cúmplice de que qualquer incêndio filho-da-puta é capaz.
Estamos, felizmente, pouco habituados a este sofrimento hiperbólico: 63 mortos (talvez mais), quase uma centena de feridos, animais dizimados, casas e carros reduzidos a cinzas, muitos quilómetros de árvores devindas nada. Nos outros dias, a televisão, a rádio e os jornais atiram-nos para cima com um acidente rodoviário, um afogamento em praia não vigiada, um crime doméstico, uma facada traiçoeira durante um roubo – e, à força de repetida, a desgraça traz consigo um não sei quê de anestesia. Mas isto a que agora fomos sujeitos é indiscutivelmente maior, pior: a meados de Junho, a maiúscula Morte visitou Portugal, sem convite nem cerimónia. Deixou-nos este amaríssimo sabor da impotência mais triste, mais desconcertada, mais patética.
Deixo para quem sabe (e parece que há muitos) a discussão sobre o ordenamento florestal, a formação dos bombeiros, a articulação entre as organizações responsáveis pelo socorro às vítimas, os meios postos à disposição dos soldados da Paz, a educação ambiental das populações, etc. Por mim, não sou capaz senão de chorar, na forma singela de uma crónica de 2.128 caracteres. De me juntar aos que, na sua frágil condição de formiguinhas sobreviventes (por enquanto) ao Inferno, lamentam os mortos. E de, na medida das minhas possibilidades, ajudar os que mais directamente sofreram a violência daquele fim-de-semana, daquele fim-do-mundo. Com água, com leite, com dinheiro. E, vá lá, com palavras.

Vila Real, 19 de Junho de 2017.
Joaquim Jorge Carvalho
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 22-06-2017. A imagem utilizada foi colhida, com a devida vénia, no site da TVI24.]

terça-feira, 20 de junho de 2017

ZONA DE PERECÍVEIS (92)



 
Apontamentos de viagem

 1. No primeiro Sábado de maio, a minha mãe foi abordada na igreja, ainda antes do início da missa, por um velhinho frágil, muito magro, quase transparente (ainda mais velho que ela própria). O senhor trazia consigo umas dezenas de papéis. E ele mesmo nos explicou que se tratava de orações por si copiadas à mão, numa elegante caligrafia como já não se usa. Levava os dias a passá-las para quartos de folhas A4 e, depois, distribuía-as por transeuntes. Deliberadamente fugia a fotocopiar as orações, por tal não ser – sustentava – “a mesma coisa". A oração tinha de passar primeiro pela sua mão, “para chegar aos outros já meio rezada”. Haverá nisto, creio eu, conteúdo para uma tese de doutoramento sobre caligrafia.

 2. Desde sempre, vejo as estações de comboios e os aeroportos como lugares muito belos e – sem contradição nenhuma – terrivelmente tristes. É nestes territórios de humanidade avulsa que sinto aquela absurda vontade de sofrer dita em verso, por Cesário Verde, a propósito do entardecer lisboeta. 
Em visita (benigna) ao Instituto português de Oncologia, no Porto, a acompanhar um familiar, eu voltei a sentir, há uns tempos, algo de semelhante. Já no regresso à vila onde resido, reflicto sobre a coincidência sensacionista: em que medida aqueles corredores são uma espécie de estação ferroviária ou de aerogare? 
Surpresa nenhuma. Creio que tudo, como sempre, tem que ver com a mortalidade. Frágeis, leves, voláteis, transitórios, indefesos, ali vejo seres, como eu, partindo ou vendo partir. Encontrando-se, desencontrando-se, despedindo-se.
Voltarei com o meu familiar ao I.P.O. daqui a um ano, segundo a agenda das consultas. Talvez aí nos reencontremos, queridos contemporâneos. Ou não. (Repito: talvez.) 
Talvez, sabei-o, é um delicado monumento linguístico à esperança, mas admite já a ominosa possibilidade da decepção. Uma ponte de cristal entre acreditar e resignarmo-nos. Entre sermos e termos de, um dia, deixar de ser. 
A rua da minha infância, quando havia vento, trazia os murmúrios de comboios indo e vindo. O nome oficial desta Estação é Coimbra B. A designação popular é Estação Velha (dita velha, notai, desde a meninice de quem agora, maduro, a recorda). E ocorre-me que essa é uma adequada designação da própria Vida: Estação Velha desde que nascemos. 

Ribeira de Pena, 13 de Junho de 2017. 
Joaquim Jorge Carvalho 
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 15-05-2017. O enunciado é uma nova versão de dois textos já anteriormente publicados no Muito Mar.]

terça-feira, 13 de junho de 2017

Os passos em volta


Não tenho a certeza de que aconteceu o que a seguir vos relato como tendo acontecido. Talvez se tratasse simplesmente de um sonho. Talvez seja um livro qualquer, lido há muito, subitamente reclamando importância na minha memória. Talvez fosse a imagem de um filme vagamente acompanhado por meus olhos cansados, nessas madrugadas pastosas em que não conseguimos dormir e tão-pouco estamos acordados. Encontrei-me com Deus. Ele estava dentro de um Austin Mini, atrás do volante.
O Austin Mini deste relato era um carro que comprei em 1983, usado e em muito mau estado, necessitando de reparação urgente a nível de motor, de chapa e de pintura. A ideia era comprar peças, avulsamente, e ressuscitá-lo, mas aquele automóvel nunca mais voltaria a andar.
Deus tinha as mãos sobre o volante, como se guiasse. Não sei bem descrevê-Lo. Talvez o seu rosto fosse semelhante ao de Herberto Helder, pouco antes de o poeta morrer. Eu disse: “Meu Deus!”
E ele: “Conheceste-Me logo?”
Eu continuei o meu grito: “Meu Deus! Este era o Austin Mini que comprei em 1983, com o dinheiro que ganhei a trabalhar na Fábrica Estaco!”
Ele disse: “Lembro-me bem da Estaco. Foi pena ter falido. Quando lá trabalhaste, havia muitas encomendas e muito dinheiro a entrar. Até para Singapura exportavam…”
Tanta sapiência confirmou que Ele era Quem era.
“És Deus?”
Ele assentiu com um sorriso omnipresente. Recordando isto, creio ter reparado em certo pormenor zigomático que, visto de agora, lembra o esgar inteligente do jornalista Daniel Oliveira.
Entrei para o carro e perguntei-lhe: “Que estás aqui a fazer?”
Deus levou alguns segundos a responder-me. Fê-lo serenamente, num murmúrio que só à custa de muita concentração me tornou audível o catecismo: “Não estou bem aqui. Aliás, não estou apenas aqui. Estou em toda a parte. Nunca to disseram?”
“E por que me apareceste? Isto é, por que estás a falar comigo em particular?”
“Sinto que andas triste. Incomoda-me que andes triste. Quero que me fales dessa tristeza.”
Eu, na verdade, nem sabia que andava triste. Pelo menos, não sabia que andava mais triste do que o habitual. A circunstância de Ele o perceber era a prova de que era Deus. Ou Herberto Helder.
“Pois bem, eu digo-Te o que me faz triste.”
Falei-lhe sobretudo da velhice, das doenças, da mortalidade. Das pessoas cujo desaparecimento é uma ofensa, uma indignidade, uma dor que nos torna para sempre deficitários de mundo e de felicidade. Da azia (física e metafísica) do ter havido e do já não haver. Percebi que ele sabia que eu falava de meu Pai, do mestre João (meu sogro), do meu amigo José António Conceição, do meu cunhado José Manuel, de juvenilíssimos alunos e de mães ou pais de juvenilíssimos alunos. Julgo até ter visto (mas não garanto) uma lágrima (ou uma promessa de lágrima) escorrendo por seu rosto de estátua viva, enquanto fingia conduzir o meu Austin Mini sem conserto.
Disse-me, então: “É a vida. A vida das pessoas também é feita dessas feridas que levam tempo a sarar.”
Eu disse: “Algumas não saram.”
Ele repetiu o que eu dissera, e a sua voz era exactamente como a minha: “Algumas não saram.” (Talvez fosse eu próprio a repetir-me.)
Deu-me para ficar nervoso: “Mas és Tu, segundo se diz, Quem fez o mundo, a vida. Por que raio há morte? Por que raio decidiste que haveria morte?”
Era este o momento, penso eu agora, de Ele falar da vida eterna que há depois da experiência terrena. Do “Vale de lágrimas” que antecede o Céu livre da morte. Mas não. Suspirou, encolheu os ombros e saiu do carro: “Isto da morte foi um erro. Lamento-o, sabes?”
E desapareceu.
Se isto que vos conto foi verdade, ainda houve tempo para eu ficar, por uns minutos mais, naquele carro mínimo, que comprei sonhando com viagens fantásticas, tardes de praia, namoro ambulante.
Saí depois para a madrugada, já a rua começava a sua lida utilitária de vozearias e de passos. A minha tristeza (que sempre escondo genialmente, para me furtar à piedade e ao falatório de circunstância) permaneceu comigo. Levo-a para todo o lado, até para crónicas de jornal.
No Sábado, à noitinha, voltei a ver o “Eixo do Mal”, na Sic Notícias. Tive outra vez a impressão de que o Daniel Oliveira fala bem e é fisicamente parecido com Deus.

Vila Real, 11 de Junho de 2017.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.publico.pt.]

quinta-feira, 8 de junho de 2017

ZONA DE PERECÍVEIS (91)



Serviço de urgência

Passamos a vida a adiar. Às vezes, fazemos bem. Mas a universal mania de procrastinar é, em si mesma, perigosa. De um momento para o outro, já fechou a loja, o balcão, o restaurante. Num piscar de olhos, passou-se (d)o prazo. Em menos de um fósforo, ardeu-se-nos a vida.
Se, à luz do preâmbulo, julgavam que eu vinha para aqui zurzir na ideia de descanso, estais redondamente enganados. Eu sou capaz de trabalhar horas a fio, mas a minha maior vocação é o ócio. Não o vejo como perda de tempo nem como actividade desprovida de méritos: é, aliás, coisa que requer disponibilidade e jeito. O meu Pai ia pouco à praia e era incapaz de aí ficar mais do que breves minutos a olhar para o mar. Levava-nos e fugia, com ou sem pretextos (a minha Mãe desconfiava, quase sempre, de saias). Era, para mim, um mistério esta incapacidade do meu Pai: ele tinha consigo o rádio de pilhas, jornais, cerveja, filhos para jogar futebol, mas era-lhe insuportável a quietude de estar-simplesmente-ali, sem um objectivo (digamos assim) prático. Chegámos a sentir pena do patriarca, tão fora da nossa felicidade absoluta: ele não percebia que ali era o espaço da liberdade mais linda, da paz feita de Sol e de odor oceânico, das raparigas bonitas desfilando pelo areal, de pão com marmelada e livros, de mergulhos e cambalhotas, de imortalidade.
Regresso ao Presente. O fim-de-semana que passou era uma excelente oportunidade para eu ir à praia. Mentalmente, fizera o itinerário há uns dez dias, enquanto bebia uma cerveja preguiçosa no ocaso de certa tarde muito quente. “Apetece-me muito ir à praia”, disse-me eu sem mexer os lábios. “Concordo”, respondi-me, sem que outrem pudesse ouvir. Ficou combinado.
Entre os planos e a concretização dos planos, meteu-se a vida de permeio (como diria o beatle Lennon): luzes de casa para substituir, carro da Filha para levar à oficina, testes para classificar, consulta de dermatologia para a Mãe. No meio da azáfama burguesa, ainda havia espaço para espreitarmos a praia da Tocha? Havia. Enrolou-se-me, contudo, a famosa serpente da fadiga, espécie de pântano com braços, que simpaticamente nos vai afogando pés, pernas, tronco, vontade. “Hoje, já não vamos”, disse-me eu, no Domingo, sem mexer os lábios. “Também já não me apetece”, respondi-me, sem que outrem pudesse ouvir.
Tudo isto é demasiado prosaico, receio eu, para o inscrever em crónica de jornal decente. Mas, já no encerramento de Domingo, em vésperas do regresso à lida transmontana, aconteceu-me falar em família naquela ideia antiga de arrendarmos, talvez em Agosto, uma casa na Tocha, dividindo despesas e convivendo todos por uma semana ou duas. E de, ao entusiasmo espontâneo, sucederem algumas reticências, porque alguém se tinha comprometido já com casa no Algarve, porque alguém comprara já bilhetes para a Madeira, porque vinha família do estrangeiro na mesma altura, porque não se sabia o que podia acontecer entretanto (gente idosa &, doenças), etc. Então, eu disse, num bocejo resignado: “Não há problema. Se não for neste ano, vamos no próximo. Temos tempo.”
Ora, nesse instante, a minha querida Mãe, provavelmente a marimbar-se para a praia e a pensar em paisagens mais além, contrapôs: “Cada vez temos menos tempo.
De modo que é assim: adiar é coisa perigosa. Já vo-lo tinha dito?

Coimbra, 05 de Junho de 2017.
Joaquim Jorge Carvalho
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 08-06-2017.]

sábado, 3 de junho de 2017

ZONA DE PERECÍVEIS (90)


Elogio da normalidade

Há umas décadas, por alturas da Páscoa, comprei um saquinho de bombons de origem francesa, que se caracterizavam, em especial, pelo imaginoso invólucro do chocolate – uns (assim chamados) papillottes, no verso dos quais aparecem axiomas, versos, provérbios. Retive um texto em particular, cuja autoria lamento não ser capaz, agora, de reproduzir (e cito, obviamente, de cor): “Enganam-se os medíocres que pensam ser possível disfarçar a sua mediocridade quando alcançam lugares elevados. Sucede o contrário: sob a luz da ribalta, os defeitos tornam-se mais notórios e ridículos.”
O conceito é-me muito caro e pertinente. E apetece acrescentar, em coerente contraponto, que no caso dos excelentes é provável que se potencie a percepção da sua honesta excelência.
Utilizei, há muitos anos, este raciocínio para troçar de Bush, o ex-presidente do Estados Unidos da América. Talvez me tenha precipitado, sinto-o agora; aquele papillote estava à espera de uma avantesma maior, de um putativo comandante-em-chefe ainda mais improvável. Falo-vos de Donald Trump, aquele saloio rico que está hoje à frente da maior potência do planeta. 
Já passou, mais ou menos, aquele primeiro choque da eleição de um boçal abastado, sem escrúpulos nem cultura, sem maneiras nem humanismo, sem vergonha na cara nem nos discursos. Já passou, mais ou menos, a estupefacção perante o facto de milhões de americanos o terem escolhido (incluindo-se nesta multidão as óbvias vítimas a haver). Por muito má que fosse a senhora Hillary, não era possível o que foi possível – eleger aquela inchada torre de nada.
Ao longo de quase meio ano, confirmámos a impreparação desta criança mimada e serôdia: a sua vacuidade, o seu patológico egocentrismo, os seus erros ortográficos no twitter, as suas falhas de conhecimento em Geografia, História, Administração Pública, Segurança, Política Ambiental. Vimo-lo, não há muito, pela Europa, passeando com a sua esposa-troféu, fazendo esgares autoritários, beicinhos infantes ou poses de esforçada concentração (acenando com a cabeça para os outros perceberem que ele percebia muito bem o que lhe diziam).
A sua linguagem afigura-se, às vezes, tão minimalista como a de um aluno do 1.º ano ou a de uma tia chique e oca: é tudo sensacional-espectacular-fantástico-maravilhoso-fixe, ou horrível-horroroso-horrífico-mau-mesmo-mau. É tudo a coisa melhor de sempre (ou do mundo), a maior de sempre (ou do mundo), a mais deliciosa de sempre (ou do mundo), mas pode também ser a coisa pior de sempre, a mais intragável de sempre, a mais odiosa de sempre. O mundo está, naquela cabeça cheia de ar, dividido entre bons e maus - estando consigo os bons e contra si os maus, naturalmente.
Entretanto, é capaz de despedir um director do FBI porque este não suspendeu investigações embaraçosas para a presidência, de vender armamento num valor de milhares de milhões de dólares à sinuosa Arábia Saudita, de revelar alegremente segredos militares à Rússia, de prometer a resolução rápida e não tão difícil como se diz do conflito israelo-palestiniano.
O que se salva disto é a liberdade que há – ainda – no país de Faulkner, Steinbeck e Hemingway, onde indivíduos e instituições não se demitem do seu dever de zelar pelo Estado de direito (agora sob ameaça, como se tem visto). A liberdade e o humor corrosivo de muitos homens e mulheres habituados a ser livres. Entre tantos, daqui celebro um gigante chamado Stephen Colbert, que apresenta o programa televisivo The Late Show, na CBS. Divirto-me tanto a ouvi-lo quanto decerto se incomoda o anafado big boss do nosso descontentamento. A última proposta de Colbert foi que os juízes federais aproveitassem o périplo presidencial pelo estrangeiro para aprovar finalmente o fecho indiscriminado das fronteiras, propostas por Trump, a quem quer entrar nos Estados Unidos.
Nunca como agora o mundo percebeu como Obama era um presidente decente. No mínimo, porque era um presidente preparado, competente, previsível. Numa palavra, normal.


Vila Real, 27 de Maio de 2017.
Joaquim Jorge Carvalho
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 01-06-2017.]

domingo, 28 de maio de 2017

ZONA DE PERECÍVEIS (89)


Uma fraude chamada ensino vocacional

O tema cai-me nos braços durante uma conversa, em Coimbra, à hora do café domingueiro, num centro comercial que serve de espreguiçadeira à pequena burguesia do meu contexto. Certa colega queixa-se, chorando, das grosserias (impublicáveis) de alunos de um curso vocacional. À notícia da violência, o seu director, diz-me ela, agiu de imediato, como lhe competia: falou com a turma, lembrou-lhes os direitos e os deveres dos alunos, ameaçou-os com punições e, enfim, incentivou-os a melhorar o comportamento em nome do sucesso escolar e da cidadania. Entre parênteses, introduziu uma nota sentimental, referindo o estado sofrido e frágil da docente queixosa, em lágrimas no seu gabinete. No dia seguinte, conta a colega, o inferno regressou: foi recebida com cantilenas jocosas, em que a palavra “chorona” aparecia como mote, refrão & voltas, entre gargalhadas e paródias de carpidação. 
O ensino vocacional, de que o auto-incensado ex-ministro Crato se ufanava – e serodiamente se ufana – é, em Portugal, uma quase absoluta fraude. Alunos com insucesso recorrente, por motivos que vão de incapacidades várias e respeitáveis à mais pura preguiça, e que se movem, regra geral, num quadro de clara desmotivação, são conduzidos para cursos vocacionais de cariz diverso – informática, agricultura, jardinagem, etc. Na prática, os piores alunos da Escola, quer do ponto de vista do rendimento, quer do ponto de vista do comportamento, juntam-se em grupos potencialmente (corrijo: fatalmente) explosivos, e “estudam”, em disciplinas consideradas fundamentais, o mesmo que os alunos do ensino regular/tradicional: em Português, Cesário Verde, Eça de Queirós, Garrett, Saramago; em Matemática, Álgebra, Geometria, e por aí adiante.
Fechados nas salas de aula, como antes, sujeitos ao mesmo tipo de ensino em que sobejamente se mostraram insusceptíveis de adaptação – eles reagem de forma impaciente, depois incorrecta, depois agressiva e grosseira. Tacitamente percebem que o sistema pretende oferecer-lhes, para sua (do sistema) própria sobrevivência, o diploma, pelo que pouco ou nada têm a perder com as atitudes menos adequadas que adoptam. Para piorar o panorama, sucede que a reunião de alunos problemáticos num mesmo grupo/turma tende (é dos livros) a potenciar os comportamentos disruptivos, a marginalidade, o puro Mal.
As vítimas, para além dos próprios discentes (condenados a ser, naqueles contextos tipificados, os vilões ou fracassados da Escola) são sobretudo os professores. Sei do que falo: não é só o penoso quotidiano de enfrentar as feras cinco, seis ou sete horas por semana (sujeitos ao enxovalho repetido, à desautorização, à vil rudeza e, em alguns casos, à agressão verbal ou física) – é ainda a miserável depressão em que mergulham, vivendo-vegetando tristemente, contando as aulas que faltam para acabar o pesadelo. Os alunos podem faltar, não fazer os seus módulos, manifestar todo o desprezo e nojo que lhes suscitam a matéria e o docente, mas é o professor que, em consequência, tem de compensar as aulas que as majestades discentes perderam, e de elaborar novas provas que finalmente aprovem (como é suposto/obrigatório) os “estudantes” relapsos.
Se o ensino vocacional não fosse a anedota que é em Portugal, estes alunos teriam aulas diferentes, em espaços diferentes, com matérias diferentes. A colega de Coimbra diz-me que já desistiu de fazer participações disciplinares (“Não lhes acontece nada e ainda acabam por gozar comigo ou por me ameaçar…”), de solicitar aos alunos que desliguem os telemóveis e não durmam nas mesas, de ordenar que não usem palavrões na aula, de pedir que se virem para a frente (“Para olhar para si?! Ainda se fosse nova e boa!”). Chora, pois, em silêncio, sobretudo em casa. Agarra-se aos seus alunos do 8.º ano (que são “educados, correctos, normais e querem mesmo aprender coisas”) por eles a fazerem sentir-se, ainda, um bocadinho professora. E risca no calendário as aulas que vai cumprindo no curso vocacional, como (diz-se) fazem os prisioneiros ou degredados de longa duração.
O Doutor Crato que limpe as mãos ao que, para glória fátua do seu umbigo fátuo, inventou.

Vila Real, 20 de Maio de 2017.
Joaquim Jorge Carvalho
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, ed. de 25-05-2017.]