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Número de Ondas

sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

ZONA DE PERECÍVEIS (115)


Três desejos (ou a felicidade)

Grupo IV do teste de Português, oitavo ano de escolaridade. Domínio: escrita. Tarefa: elaboração de um texto narrativo, partindo de uma situação fantástica (no sentido genológico do termo) – um mago, para premiar certo gesto generoso do narrador participante, oferece-se para satisfazer três desejos à sua (dele, narrador) escolha.
Os alunos enveredam por múltiplas-díspares hipóteses. Há quem recuse os desejos porque a bondade, se for mesmo bondade, é gratuita e não tem de ser paga. Há quem peça o venal dinheiro, a fundamental saúde, a abstrusa fortuna. E há raparigas e rapazes que pedem a imortalidade dos pais ou dos avós, a cura para o cancro, amigos novos, uma família “como deve ser” (sic), uma pastelaria na terra natal.
E eu bendigo esta tarefa da escrita, que tão naturalmente convocou nos alunos a reflexão filosófica sobre a magna e movediça questão da felicidade. Assombra-me a preclaridade tão precoce dos jovens aprendentes neste delicado ofício de pensar na sorte e no destino a haver.
Eu levei muitos anos a perceber que ser feliz era muito mais do que ser rico, ter sucesso ou fama ou poder. Por desde sempre viver vizinho dos amigos, dos livros, da família, dos filmes, do futebol, das praias, do amor – andei enganosamente à procura de coisas outras que significassem, julgava eu, a realização pessoal completa. Naquela ignorância, acreditava que o importante era não o que tinha, mas o que não tinha. Até saber a verdade evidente e grande como o mar: que a felicidade é um processo e são instantes; que estar bem se faz de mui simples horas, mui mínimas circunstâncias; que nunca se é feliz, antes se está.
Para alguns dos meus alunos, ser feliz é o avô não morrer de cancro. É testemunhar o milagre da amizade, algures na rua ou na escola. É ter pais que se dão bem e tratam os filhos dignamente. É ter uma pastelaria na sua terra (isto é, um trabalho que os salve do exílio). Coisas pequeninas e simples. Coisas, atentai bem, afinal maravilhosas e raras – como, já agora, isto de eu-cronista cronicar e ser lido (pois que lerem-me é um direito e eu ser lido é um privilégio).
Ora, a terminar, aqui ficam, os meus próprios três desejos, já em antecipação natalina: saúde para o cronista; saúde para os leitores; saúde para estas perecíveis crónicas, que aspiram a ser, no entretanto de (co)existirmos, um saudável território de encontro.

Coimbra, 30 de Novembro de 2017.
Joaquim Jorge Carvalho
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 07 de Dezembro de 2017. A imagem (do inesquecível filme Cinema Paraíso, de Giuseppe Tornatore, foi colhida, com a devida vénia, em http://www.magazine-hd.com.]

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

ZONA DE PERECÍVEIS (114)


Caça aos professores

Não cessa de me espantar a sanha, mal disfarçada ou brutalmente ostensiva, que os tudólogos da pátria demonstram quando falam de professores.
Declaração de interesses: eu sou professor (“dessa raça”, como disse, na televisão, uma obesa excelência cheia de nada). Nem sempre adiro às greves marcadas pelos sindicatos, mas sou sindicalizado desde que abracei a profissão. É minha convicção que, depois de ouvirem-lerem o que se disse-escreveu contra os docentes, muitos dos que não aderiram à greve terão ficado com vontade de endurecer a luta.
A greve do passado dia 15 de Novembro foi pretexto para, em jornais e revistas, na rádio e na televisão, nas redes sociais e nas tascas e Cafés do país, as línguas viperinas atacarem os docentes, os sindicatos e os partidos que – ó escândalo dos escândalos! – apoiaram o protesto.
Para quem está na profissão com a paixão e o profissionalismo inerentes ao ofício, dói horrores ver-ouvir-ler tanto disparate opinativo, tanta ignorância gratuita e tanto (misterioso) ódio. Interrogo-me, em particular, sobre as razões que levam políticos e comentadores a nutrir este indisfarçado desprezo por quem fez do ensino a sua vida. Que traumas terão estas pessoas coleccionado, ao longo da existência, para agora, com tão pouca gratidão e tão fraca gramática, espumarem ressentimentos e falácias pelo palco mediático?
Entre outros clichês, dizem que os professores não têm avaliação. É mentira. Asseguram que os professores progridem sempre, sem quaisquer obstáculos. É mentira. Garantem que os sindicatos conseguem sempre quanto reivindicam. É mentira. Dizem que não é aceitável a quase totalidade dos professores obter uma classificação positiva para o seu desempenho (“Bom”). Atentai, por favor: quando vamos a um restaurante e somos servidos, podemos encontrar um empregado mais rápido, outro mais simpático, outro mais diligente, outro divertido – mas o normal será que o serviço fundamental seja cumprido, no matter what, não é verdade? É isso que se passa também nas escolas, nos hospitais, nas repartições públicas, nas papelarias, nas oficinas. (E quando não é assim, temos o direito e o dever de reclamar.)
Está tudo bem no estatuto da carreira docente? Creio que não. Defendo, por exemplo, a necessidade de se repensar a carreira, nomeadamente com a valorização salarial dos que estão na base do sistema. Ao contrário dos militares, cujas maiores patentes consubstanciam, de modo geral, maiores competências e responsabilidades, um profissional em início de carreira pode já exercer a maioria das funções atinentes ao professorado (docência, direcção de turma, coordenação de departamento, dinamização de projectos, etc.). Também defendo (e isto é matéria polémica entre os meus colegas) que, quando os candidatos a determinado escalão são em número superior ao das vagas disponíveis, haja exames escritos versando conhecimentos científicos e pedagógicos (talvez organizados pela universidade) que ditem quem pode ou não progredir. Bem sei que este crivo não é perfeito, mas salvar-nos-ia da venenosa desconfiança sobre eventuais favorecimentos pessoais.
A terminar: tenho um grande orgulho na minha profissão. Há séculos que os professores resistem ao desprezo e ao ódio de brutos e de ingratos. Mas o trabalho docente é uma espécie de caravana que, apesar de tudo, lá vai passando, enquanto a ignorância ladra.

Coimbra, 23 de Novembro de 2017.
Joaquim Jorge Carvalho
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 30-10-2017. A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://pixabay.com.]

sexta-feira, 24 de novembro de 2017

5 Quadras & 1 Sextilha (tudo por amor)

  


O meu amor é concreto, literal
Terreno e corpóreo. E tem
Cheiro, pele macia, algum sinal
Um certo paladar que sabe bem.

Não posso descrevê-lo por figura
De estilo esquisita, burilada:
O meu amor não quer senão ternura
E ri-se da paixão metrificada.

Ai, o meu amor é tão moderno!
Por exemplo, eu constipo-me amiúde
E adiamos beijos no Inverno
Por puros motivos de saúde.

Amo em meu amor quanto ele tem:
O olhar sereno-doce, ou a voz rouca
Gosto de sentir a sua boca
Na minha, sem saber qual é de quem.

Nunca lhe falo de eterna paixão
Por ser algo abstracto o sentimento;
Amo o meu amor neste momento
Como é de quem ama obrigação.

Com o meu amor, vou por aí
Simplesmente feliz. E se houvesse
Literatura que dissesse a alegria
De estar fisicamente junto a si
(Pode haver, mas nunca vi)
Eu, meu amor, comprá-la-ia.

Cabeceiras de Basto, 26 de Janeiro de 2017.
Joaquim Jorge Carvalho
Participei, com este poema, no Concurso de Textos de Amor Manuel António Pina – 2017, uma organização do Museu Nacional de Imprensa. O júri foi constituído por Fernando Pinto do Amaral (Director do Plano Nacional de Leitura), José Luís Pires de Laranjeira (Professor da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra), Luísa Marinho Antunes Paolinelli (Professora da Universidade da Madeira) e Luís Humberto Marcos (Director do Museu). No dia 18-11-2017, tive a honra de receber uma simpática menção honrosa e de conhecer Ana Pina e Sara Pina, as duas filhas do grande - e para sempre vivo - Manuel António Pina. Nota importante: retirei, com a devida vénia, estas fotos da página de Facebook do Museu Nacional de Imprensa. Numa delas, estou com uma formosa fadista (infelizmente, não consigo recordar-me do seu nome), de cujas mãos recebi o meu diploma. Na outra, vemos Ana Pina, Sara Pina, Luís Humberto Marcos e o Professor Pires de Laranjeira.]

ZONA DE PERECÍVEIS (113)



Elogio do aforismo

- Lembro-me de, em menino, estar febril, vomitando aos soluços, já sem forças para me queixar ou pedir socorro. Invariavelmente, era a minha Mãe quem operava o milagre do consolo e da esperança. Estava ali, omnipresente como Deus, a temperar de amor o sofrimento mais negro, colocando as suas mãos sobre a minha testa, amparando-me a cabeça.
- Mãe é Mãe.
- Sim, mas o que digo aqui é mais do que o teu provérbio diz. Sabes, o tempo deu entretanto a volta, e acontece-me agora, por vezes, ter a minha Mãe com febre e vómitos, sem forças já para se queixar ou pedir socorro. Tomo, nessas ocasiões, as suas mãos nas minhas, como se ela fosse uma menina em apuros, e eu fosse, quiçá, o seu Pai, e faço-lhe festinhas na cabeça, ou seguro a sua testa enquanto lhe sucedem os arrancos de estômago.
- Filho és, Pai serás. E amor com amor se paga.
- Pois, mas creio que o fenómeno não cabe em simples ditados populares. Vê que os mistérios da vida são demasiado complexos para tão pobre literatura. Há na nossa existência aspectos insondáveis à luz dessa linguagem tão rudimentar. Estou a lembrar-me do desvalor que até o maior dos lingrinhas atribui à própria vida em comparação com a de um ente visceralmente amado. Eu e a minha Filha, por exemplo. Tenho de perder conforto para ela estar bem? Perco-o, sem hesitações. Tenho de não dormir para ela poder descansar? Não durmo, naturalmente. Tenho de morrer para ela viver? Morro, claro.
- Amor, a quanto obrigas! E quem tem coragem, tem vantagem.
- É verdade, mas não é decerto apenas disso que se trata. Há uma espécie de superior dimensão em tudo quanto envolve o Amor. É, estou convencido, o maior enigma de todos os tempos e de todos os lugares. Que força é esta, caramba? De onde vêm tantos (infinitos) volts para tal luz? De que nascente surgem as inestancáveis lágrimas pela perda de certa amada gente? De que droga deriva tamanho ânimo, que nos resgata dos pântanos mais traiçoeiros e nos impele às subidas mais impossíveis, nos torna heróis semelhantes aos de mitos ou de banda desenhada, nos garante a resistência a todas as provações?
- Diz-se que a fé move montanhas.
- Pois, mas deve ser mais do que isso. Já to lembrei: um mero aforismo não pode ser capaz de dizer quanto te venho aqui dizendo.
- Os provérbios são a voz do povo.
- Serão, talvez, mas tudo quanto aqui te trago, amigo, precisa de uma linguagem maior. De uma linguagem (estava a ver se evitava este adjectivo) divina.
- A voz do povo é a voz de Deus.

Coimbra, 19 de Novembro de 2017.
Joaquim Jorge Carvalho
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 23-11-2017. A imagem foi colhida, com a devida vénia, em https://laisladesiltola.es.]

domingo, 19 de novembro de 2017

ZONA DE PERECÍVEIS (112)



A um jovem professor

O filho de um amigo, estudante do 7.º ano de escolaridade numa escola em Coimbra, confidencia-me o seu gosto pelo estudo, sobretudo pela literatura. Adivinho que será bom aluno, em particular a Português. Ele confirma, mas obtempera: “Não vou ter nível 5. Vou ter 4.” Pergunto: “Porquê?” E ele responde: “A professora não dá nível 5 no primeiro período. Tem medo de que os alunos desçam no segundo…
Conheço há muito esta “filosofia” (e as aspas sou eu a rir-me tristemente.) Tenho falado bastante sobre o fenómeno, em contextos formais ou informais, e desconfio de que numerosos colegas não têm já paciência para aturar a minha indignação. Esta opção por atribuir nível 4 a alunos que mereceriam 5, à luz dos critérios definidos, não é apenas ilegal – é pouco inteligente.
Costumo trazer à discussão o programa de Português, dividido geralmente em três macro-conteúdos: texto narrativo, texto dramático e texto poético (claro que estou a resumir, por óbvias razões de economia enunciatória). Imagine-se que, no primeiro período lectivo, enquanto estudava a narrativa, o aluno estava “nas suas sete quintas”, participando activamente nas aulas, obtendo excelentes resultados nos testes, cumprindo – com denodo, entusiasmo e brilho – as suas tarefas. O docente, por capricho pessoal, recusa-lhe o nível máximo. Chega o segundo período: o aluno, para além de (quem sabe?) descorçoado com aquele nível 4, vem a revelar-se menos bom no estudo do texto dramático, seja porque lhe desagrada esse modo literário (ou a escolha de autores obras para o estudo da matéria), seja simplesmente porque está menos focado nos deveres escolares durante aqueles meses de Janeiro-Fevereiro-Março, eventualmente passados a curtir desgostos amorosos ou desportivos. O professor volta a atribuir-lhe o nível 4, senão o 3. E dirá, imagino eu, com pacóvia assertividade: “Eu não dizia? Olha se eu lhe tivesse dado o 5…
Ora, a putativa conclusão do putativo docente é pouco séria, desculpai-me a franqueza. Se o aluno, após ter obtido nível 5 no primeiro período, tivesse registado um menor rendimento no decurso do segundo, que problema haveria em propor, nesse caso, a descida do nível 5 para o nível 4 (ou mesmo o 3)? Problema, de facto, é conseguir “devolver” ao aluno o nível merecido no primeiro período, se a criança ou jovem vítima desse “roubo” não mais repetir, ao longo do ano escolar, a excelência do rendimento inicial.
Creio que, em muitas circunstâncias, bastaria aos professores a generosidade (i.e., a humildade) de ver cada situação através dos olhos dos seus alunos, no sentido de bem aferir dos prejuízos ou dos ganhos pedagógico-pessoais das decisões tomadas. Atrevo-me a dizer que a maioria dos meus colegas tem esse cuidado (e ainda bem).
Quando, em 1985, iniciei a carreira de professor, disse aos alunos, logo ao primeiro dia, na apresentação, que contava já com dezasseis anos de experiência. O meu público riu-se, divertido, como se aquela afirmação fosse uma piada. Pois como poderia alguém tão novo (com vinte e dois aninhos cheios de frescura e acne) ter já dezasseis anos de experiência?
Expliquei-lhes, cordialmente, que estava a contabilizar os meus anos “do outro lado”, como estudante, testemunha (como eles) das melhores práticas e das piores barbaridades. O velho professor que sou hoje tem um recado para o jovem professor que fui em 1985: “Tinhas razão, pá.”

Vila Real, 11 de Novembro de 2017.
Joaquim Jorge Carvalho
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 16-11-2017. A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.construirnoticias.com.br.]

terça-feira, 14 de novembro de 2017

ZONA DE PERECÍVEIS (111)


A ilha dos tesouros

Ando a telever, com fidelidade canina, uma série genericamente intitulada “A Ilha”, que passa na Sic Radical e vai já na 2ª série. Em boa verdade, não obstante a aparência de documentário, trata-se de um “reality show”, visto que os protagonistas são cidadãos britânicos, tão comuns como eu e os meus caros leitores, ocupados – todos – com a questão da sobrevivência em contextos difíceis.
A produção do programa leva alguns indivíduos (homens, num dos casos; mulheres, noutro) para uma ilha do Pacífico, desabitada e inóspita, ainda assim com recursos teoricamente suficientes para se sobreviver. Os novos ilhéus recebem, à partida, cinco machetes, cinco anzóis e alguns (rudimentares) apetrechos (por exemplo, uma panela e um bidão metálicos). Terão, depois, de ser capazes de construir abrigos e camas, de fazer uma fogueira e mantê-la, de defender-se dos perigos à solta na ilha, de recolher água e fervê-la (para a tornar bebível sem riscos fatais), de pescar, de caçar, de recolher frutos, tubérculos, moluscos, larvas.
Estão radicalmente entregues a si próprios (as próprias filmagens, realço, estão a cargo destes neo-insulares). Só em último recurso poderão solicitar ajuda do exterior, nomeadamente em caso de desistência ou de problemas graves de saúde. Cada dia é uma luta tremenda. Arranjar comida ou água, tratar de feridas, resistir à inclemência da chuva ou do calor – tudo assume uma dimensão única e épica. A mim, na confortável condição de espectador, comove-me o (raro) sucesso da pesca, a morte de um caimão às mãos de um operador de câmara e de um técnico de informática, a descoberta de uma poça com água suficiente para alguns dias. Ali, dia após dia, cada indivíduo encontra em si e em cada um dos outros as aptidões que, conjugadas solidariamente, tornam menos penosa a sobrevivência.
Ainda que diferidamente, é como se reencontrasse Swift, Defoe, Tournier, Fielding, Camões, Fernão Mendes Pinto, Calvino, Stevenson – e novamente me tornasse cúmplice da aventura fundadora da existência humana, conhecendo e dominando a Natureza, superando os perigos e o sofrimento, resistindo à penúria e ao desânimo.
Tal como percebera, em outras ocasiões, pela literatura de viagens, confirmo nesta série que boa parte do valor da vida está no mérito de ultrapassar os obstáculos e as dificuldades concomitantes ao verbo viver.
Em certo momento, um dos aventureiros fala do aparente paradoxo que há na ilha, por se tratar de um espaço majestosamente belo e mortalmente perigoso. Acrescenta (cito de cor): “Não é só o facto de, aqui e ali, enfrentarmos ratoeiras. É toda a ilha ser uma ratoeira!” Ora, a piada desta observação está no seu potencial metafórico: basta que substituamos “ilha” por “vida”.
Há dois tesouros fundamentais que retiro de quanto tenho televisto para a nossa moderna e mui sofisticada existência:
a) o que temos e damos normalmente por vulgar & adquirido é, se visto sob um ângulo essencial e justo, coisa muitíssimo preciosa;
b) só é possível a sobrevivência de cada um com o esforço (inteligente, concertado e solidário) de todos.

Vila Real, 05 de Novembro de 2017.
Joaquim Jorge Carvalho
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 09-11-2017.]

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

ZONA DE PERECÍVEIS (110)



O inferno dos outros


Há muito que ouço um argumento falacioso e adivinhadamente disruptivo sobre as carreiras da função pública – o de que a velhice tem elevados salários à custa da miséria dos novos que iniciam a profissão: “No começo da vida é que precisamos de dinheiro”, escuto eu aqui e ali. 
Não foi preciso que deviesse velho para me aperceber da injustiça e do erro que há nessa visão. Também eu entendo que, em muitas profissões, os jovens em início de carreira são mal pagos e que, em concomitância, têm dificuldades evidentes na construção de uma existência autónoma, fora da casa dos pais, quiçá com cônjuge e filhos. Mas igualmente se me afigura claro o facto de, com a idade, chegarem outras (novas e dispendiosas) exigências a condicionar a sobrevivência – tratamentos médicos, medicamentos crónicos, especificidades alimentares, auxílio a filhos e netos. 
Pior que esta falácia, é o jogo delicado da Culpa: Hitler identificou os judeus como responsáveis por todos os males da Alemanha e do Mundo; noutros tempos e noutras paragens, o estigma recaiu sobre os negros, os cristãos, os muçulmanos, os estrangeiros. Em nome desta ignorância, discriminou-se, perseguiu-se, torturou-se, matou-se (e discrimina-se, persegue-se, tortura-se, mata-se). 
Durante o consulado de Coelho, Portas & Troika, houve quem, à direita, explorasse-estimulasse-potenciasse, sem decoro nem humanidade, a divisão entre velhos e novos, como aliás – também – entre trabalhadores do público e trabalhadores do privado, ou entre população activa e pensionistas. Alguma dessa baba estúpida e perigosa permanece na vox populi. No imediato, esta guerra beneficia, quase sempre, quem governa, pois dirige as frustrações, o ressentimento e a revolta de quem sofre para os alvos aparentemente culpados de todas as crises: os outros; os que, por existirem diferentes de nós nos disputam o espaço, a riqueza, o oxigénio. “L’enfer, c’est les autres”, avisava tristemente Sartre. 
Há dias, em Lisboa, pessoa amiga ouviu um taxista, ainda jovem, sem paciência para as passadeiras urbanas, queixar-se dos “velhadas que nunca mais morrem e andam para aqui a mamar na teta do Estado”. Entre buzinadelas e impropérios, o primata concluiu (e reporto-o como ela mo contou): “Isto só lá vai a tiro, ó menina!” 
Não tenho vocação nem paciência para conselhos sobre partidos e candidatos a escolher em eleições. Mas, como aprecio a civilização, atrevo-me a sugerir que, no momento do voto, se evitem taxistas adeptos da “solução final”. 

Coimbra, 26 de Outubro de 2017. 
Joaquim Jorge Carvalho
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 02-11-2017. A imagem (foto de Jean Paul Sartre) foi colhida na net.]

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

ZONA DE PERECÍVEIS (109)


Felicidade básica

A conversa partiu de uma frase de Manuel António Pina sobre a felicidade. O saudoso (sempre vivo) autor de Nenhuma Palavra & Nenhuma Lembrança escreveu no JN, em 2006, uma bela crónica sobre o tema. A ideia essencial, que ali esculpiu em poucos caracteres, era bem singela: mais do que pensar muito sobre as razões e os caminhos para sermos felizes, devemos viver a vida (i.e., aproveitá-la), com a gratidão ou a paciência necessárias. Mas o Saul, aluno do 8.º ano de escolaridade do ensino básico, divergiu livremente do cronista. Aventou, alternativo: “Eu acho que não há mal nenhum em pensarmos no assunto. Para mim, ser feliz é sentir que a vida vale a pena.
A discussão estalou por uma eternidade de, talvez, trinta e cinco minutos. A Rosa, de mãos dadas com Manuel António Pina, defendeu que pensar na felicidade não fazia sentido, uma vez que “a vida vale sempre a pena”. Logo contrapôs o Saul que aos doentes, aos pobres e aos refugiados talvez não. O Vítor, muito sério, ajeitando os seus óculos de (dir-se-ia) homem mais velho, declarou que, mesmo nessa situação, “todos querem viver”. “Daquela maneira?”, perguntou a Sónia, corroborando romanticamente a perspectiva do Saul. “Desde que tenham esperança…”, sugeriu a Vânia.
Uns minutos antes do final da aula, lá consegui um concerto razoável sobre o conceito debatido: “Ser feliz é sentir que a vida vale a pena, mesmo quando não corre bem, desde que haja esperança.” Reforça-se o sentido, deste modo, de um famoso aforismo: “A esperança é a última [coisa] a morrer” (ou seja, a morte só nos vence verdadeiramente quando desistimos de acreditar).
No fim-de-semana seguinte, faleceu o Pai de uma aluna do sétimo ano - e eu revisitei, com o coração, aquela crónica de Pina. Reparei entretanto que faltou à escola, hoje, a menina vítima deste roubo maior. Conversei sobre os alunos da sua turma sobre o sucedido. Confessei-lhes que uma dor assim nunca desaparece, apenas se torna suportável com o tempo e as novidades que hão-de vir. Aconselhei-os a falar do assunto com a colega apenas quando esta o quiser. Sugeri-lhes que a fizessem sentir-se acompanhada. Pedi-lhes que estivessem vigilantes, atentos, disponíveis. Eles escutaram-me com desusado silêncio e rara quietude.
A minha crónica é dedicada ao imenso Manuel António Pina, senhor tão precocemente desaparecido, com quem converso há muitos anos sem jamais ter tido a graça de lhe apertar a mão. É também dedicada a uma menina com saudades do seu Pai. E é, finalmente, uma homenagem ao Sol que teimosamente habita a condição humana. Esclareço: a condição humana representada pelos meus buliçosos alunos do ensino básico, que são literal e simbolicamente o contrário da morte, e que vejo sempre cheios de uma irreprimível vontade de afirmar o que pensam, sentem, sonham. Em português e em liberdade.

Vila Real, 22 de Outubro de 2017.
Joaquim Jorge Carvalho
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 26 de Outubro de 2017. A foto (com Manuel António Pina) foi colhida, com a devida vénia, em http://www.ibliotecariodebabel.com.]

domingo, 22 de outubro de 2017

ZONA DE PERECÍVEIS (108)


Meia dúzia de óbvios

1. Ao contrário do que alguns pedantes pensam e grandiloquamente defendem, dizer o óbvio vale, quase sempre, a pena. A Verdade merece, como tantas grandes canções de sucesso, um refrão que regularmente assinale, com ritmo e melodia eficazes, o essencial de nossas vidas.
2. Por exemplo: nascemos e morremos; entre o princípio e o fim, vivemos ou duramos. É assim, é óbvio que é assim. Mas aquela (óbvia) diferença entre viver e durar tem que se lhe diga – e é crucial lembrarmo-nos disso, em cada esquina funcionária, em cada lapso caminhante, em cada fôlego horário. Aqui entre nós: ainda agora telefonei à minha Mãe, só para ter, por minutos, a graça da sua voz. Dispensável, direis. Talvez; mas imaginai que sabíeis do iminente desaparecimento do Sol. Ficaríeis o dia todo fechados em casa, sem dele recolher quanto pudésseis em luz e temperatura?
3. Tenho um amigo que, de quando em vez, me telefona das ruas onde eu gostaria de estar. Não sinto inveja, juro; ao contrário, experimento a gratidão por me ser concedido esse bónus de mundo ao meu quotidiano migrante. E, enfim, por ter camaradas capazes de tamanha generosidade. Que faço, pois, quando toca o telefone? Aproveito, como é óbvio.
4. Um amigo é um tesouro. De tão repetida, a evidência pode devir clichê, sei-o bem, mas dizer o óbvio é, também aqui, justificável e justo. Eu falo muitas vezes do meu amor por família e amigos. Habituei-me a ouvir que aquela não se escolhe e que estes, sim. Creio que tendemos, em geral, a considerar família as avulsas pessoas por quem temos afeição, e a preferir, na tribo familiar, os que, para além da fatalidade sanguínea, são merecedores da nossa amizade.
5. Há uma oncologia comum que mata frequentemente a amizade: é a zanga, depois ressentimento, depois ódio irracional. Não poucas vezes, tudo começa numa divergência fútil, caprichosa, despicienda. Com o tempo, o veneno tumoral pode matar o vínculo afectivo. Eu conheço muitos exemplos de gente que se especializou no ódio, porém esquecida, já, do motivo que a trouxe a esse afastamento radical. Não valeria a pena trocar tanta raiva por um abraço e, em concomitância, pela possibilidade de dar nova vida à amizade interrompida? Parece-me tão óbvio que sim.
6. Estava já a crónica feita, e a boca voraz, traiçoeira e cínica do Fogo veio a Portugal por mais alimento, somando às mortes e à destruição anteriores a destruição e as mortes de agora. Logo regressaram também os tudólogos da pátria, apontando culpados, expelindo (entre vaidade & baba) as medidas certas a tomar, regurgitando (entre baba & vaidade) as medidas erradas que se tomaram. Ainda bem que, na madrugada do dia 17, ouvi finalmente a chuva e pude, enfim, juntar o meu suspiro grato ao suspiro do próprio chão saudoso de frescura. É tempo de chorar os mortos e de ajudar os vivos que perderam tanto. Mas também de nos livrarmos dos fogos da má-língua e da politiquice mais rasteira – e de, serenamente-sensatamente-responsavelmente, preparar o País para os problemas a haver. Também isto, amáveis leitores, me parece óbvio.

Vila Real, 15 de Outubro de 2017.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, na maravilhosa BD Calvin & Hobbes, de Bill Watterson.]

ZONA DE PERECÍVEIS (107)



Espuma autárquica

Os resultados das últimas autárquicas não devem, naturalmente, ser lidos como se se tratasse de uma eleição idêntica à das legislativas. Mas tão-pouco me parece avisado ignorar o cariz fatalmente nacional da consulta. Enquanto eleitor, já me habituei a votar em diferentes candidatos/partidos numa mesma eleição autárquica – e uma ou outra vez lá engoli o meu sapo, ajudando a eleger presidentes de câmara que não convidaria sequer para um café; nesses casos, reservo a minha sinceridade maior para a escolha do presidente da Junta ou da Assembleia Municipal. Trata-se de pensar no País em geral, no primeiro caso, e de confiar pessoalmente nos nomes a sufrágio, no segundo. 
Já toda a gente opinou sobre as vitórias e as derrotas mais conspícuas do dia 01 de Outubro (aqui se destacando o evidente sucesso do PS, claro). Creio, contudo, que poucas vozes se têm ocupado de um certo fenómeno importante, aparentemente larvar, no panorama político de Portugal – o do esvaziamento do PSD em benefício já não apenas do PS, mas do CDS-PP. É verdade que no Porto o partido de Assunção Cristas se abrigou sob a asa magna do independente Rui Moreira; mas bastaria reparar nos resultados em Lisboa para se perceber o extraordinário reforço dos chamados “centristas”. A quem, no PSD, a acusava de traição, Cristas já veio dizer que Passos Coelho menorizou as autárquicas, nunca assumindo a urgência, nesse plano, de um trabalho aturado, consistente e próximo nas ruas e bairros da capital.
Julgo que as ideias, a atitude e o discurso de Passos, enquanto primeiro-ministro, muito contribuíram para esta emancipação do CDS-PP, que passou a ser visto, não só como muleta do partido principal da Direita, mas como alternativa moderada e razoavelmente humanista a um certo liberalismo de pacotilha (espécie de Margaret Thatcher requentada). Sintomaticamente, em Loures, o CDS-PP envergonhou-se do discurso troglodita de André Ventura. Esse pudor, do ponto de vista do eleitor nacional, é uma relevantíssima afirmação de higiene e de decência, que pode, a prazo, ser um trunfo não despiciendo. A confirmar nas legislativas.
Os resultados do PCP mereceriam uma crónica inteira. Ainda assim, à laia de telegrama, aduzo algumas notas. É mais ou menos unânime a ideia de que os autarcas da CDU são, em geral, competentes, dedicados e honestos. A perda (dramática) de poder autárquico representa, neste caso, o preço a pagar pela aproximação dos comunistas, na Assembleia da República, ao PS (e, concomitantemente, uma tácita legitimação da transferência de votos para o partido de António Costa)? Pode ser. Mas o que sobretudo ressalta da situação, não apenas conjuntural, é esta aparente incapacidade de o PCP se renovar, actualizando alguns dos seus conceitos fundadores, sob pena de morte por obsolescência.
A Direita diz que o PCP não pode mudar porque, se o fizer, desaparece. Mas pode, creio eu, suceder o contrário: desaparecer (ou tornar-se residual) por não mudar.

Coimbra, 08 de Outubro de 2017.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.educacao.cc.]

sábado, 7 de outubro de 2017

ZONA DE PERECÍVEIS (106)


Morrer-nos alguém

Vou regularmente a um cemitério coimbrinha, acompanhando a minha irmã num ritual de saudade: ela limpa a campa do marido, falecido há três anos, e renova-lhe o arranjo floral que decora aquela ausência em pedra. O ausente, para além de cunhado, era também o meu melhor amigo – e a toda a hora me faz falta o mundo (muito mais rico e completo) que, antes da sua partida, éramos e fazíamos. Todas as mortes, creio, nos doem como se se tratasse da nossa própria Morte. E com o desaparecimento de quem nos é próximo, é isso mesmo que sucede, mas em pior.
Na semana que passou, a terra transmontana onde resido (há mais de vinte anos) perdeu um homem importante. Era meu rival no futebol e, talvez, na mundividência política, mas era sobretudo um cúmplice da minha existência essencial, amante dos simples prazeres da vida, do humor, da conversa, das histórias, da família, dos pequenos-grandes sonhos que tornam menos árido o quotidiano dos homens. Era mais novo que eu três ou quatro anos, cheio de força tão pouco antes de adoecer: é, aliás, dessa saúde que me lembro, agora, como um parênteses alegre e lindo encravado na Noite definitiva.
Ouvi, pela enésima vez, durante o caminho entre a igreja e o cemitério, alguém dizer “É a vida” e “A morte toca a todos”. Mas até essas palavras, apesar de vestidas de resignação, sabem ao vinagre da impotência, senão ao veneno da revolta.
No dia 27 de Setembro, televi, na RTP2, o documentário “Gabo, a magia da realidade”, datado de 2015, do realizador Justin Webster. Nele, Gabriel García Márquez fala, em discurso directo, da condição fatalmente mortal da condição humana. Cito: “Eu a única opção que aceito é a de não morrer. O importante é estar vivo. E acho que a morte é uma armadilha, uma traição que incondicionalmente nos captura. Para mim é muito sério e grave o facto de tudo se acabar, e praticamente sem aviso… Acho que é injusto.” A jornalista pergunta-lhe: “Que podemos fazer para o evitar?” E Gabo responde: “Escrever muito.
Um dos irmãos do senhor Avelino disse-me, durante o abraço de pêsames, na noite do velório: “É preciso recordarmos os bons momentos…”
Dei por mim a pensar: certo e triste; triste e certo. E escrevo-o.

Coimbra, 30 de Setembro de 2017.
Joaquim Jorge Carvalho
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 06 de Outubro de 2017. A foto, com o saudoso Avelino Borges, data de 2006, quando ainda éramos todos ainda razoavelmente imortais.]

quinta-feira, 28 de setembro de 2017

ZONA DE PERECÍVEIS (105)


Notícias da civilização


Não sou de me lamuriar acerca do país onde nasci e vivo. Gosto muito de ser Português, da nossa História, da nossa Língua, do nosso Sol, do nosso Mar, dos nossos Eça, Dinis, Camões, Pessoa, Ruy Belo, Sophia, Pina, Amália, José Afonso, Dulce Pontes, Paula Rego, Eusébio, Ronaldo.
Mas falei, em Agosto, com um velho conhecido, emigrante há mais de vinte anos num país do Norte europeu. Ele confessou-me as saudades da terra natal, do bacalhau, dos jornais em português, da família e dos amigos, da luz portuguesa. E obtemperou:
- Nem tudo é mau, claro.
A começar, como se adivinha, pelo bom salário. A continuar, por certas regras e costumes que o impressionaram e ele abraçou com gosto - e que são, para quem vê a novidade do lado de cá, um espelho de civilização. Falou-me, por exemplo, daquele escândalo dos submarinos, que alegadamente envolveu portugueses e alemães:
- Na Alemanha, já houve acusação, julgamento e culpados. Em Portugal, parece que nada se passou.
Depois, falou-me dos dejectos caninos que abundam pelos passeios das vilas e cidades de Portugal; e do barulho feito pelos cães dos vizinhos a alta horas da noite; e da impunidade de maridos violentos; e do perigo de automobilistas broncos e irresponsáveis:
- Ali, a polícia actua, pá!
Disse-me também que é obrigado pelos médicos a fazer exames regulares (à próstata, ao cólon, etc.), no sentido de prevenir males eventualmente irresponsáveis, e que pouco ou nada paga por isso; e que os alunos do ensino básico e secundário, para participar nas aulas de Educação Física, têm de obter previamente uma autorização clínica; e que, enfim, a assistência na saúde, ali, nem se compara à do berço pátrio.
Atenção: este meu amigo está muito entusiasmado com a iminência da reforma, que lhe permitirá o regresso a Portugal, mas já se vai mentalizando para a perda (ou degradação) de muitos dos direitos sociais e profissionais a que se habituou. À mulher, mais nova do que ele, falta-lhe cerca de um ano para o fim da carreira contributiva, ainda assim cerca de quatro anos menos do que teria de cumprir à luz da lei portuguesa.
Eu fico feliz por sabê-lo bem, lá longe, no estrangeiro. E confesso-lhe que ouvi-lo falar assim da 1ª divisão da Europa soa, em muitos dos exemplos enunciados, a algo verdadeiramente estranho. Mas estranho e estrangeiro habitam, como se sabe, o mesmo regaço etimológico.

Vila Real, 23 de Setembro de 2017.
Joaquim Jorge Carvalho
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 28-09-2017. A ilustração foi colhida, com a devida vénia, em http://www.maedecachorro.com.]

sexta-feira, 22 de setembro de 2017

ZONA DE PERECÍVEIS (104)



O último ano de Monsieur Burel

Passou na RTP2, no passado dia 12 de Setembro, um documentário intitulado “Mon maître d’école” (com o título “Adeus, meu professor”, em português). A francesa Émilie Chérond teve uma ideia luminosa: acompanhou, com uma câmara de filmar, o último ano de carreira do seu velho professor primário, recolhendo en passant impressões, comentários e desabafos deste seu maître, Monsieur Burel, acerca da escola, da profissão, das gentes da vila, da humanidade. A realizadora reconhece, aqui e ali, práticas pedagógicas que, no seu tempo de menina, a impressionaram já – e revê-se na cúmplice felicidade dos petizes do século XXI, por exemplo na construção de um desenho colectivo, ou na possibilidade de cada aluno recorrer livremente à “caixinha das perguntas” e questionar o docente sobre astronomia, leis, História, flatulências, superstições.
O documentário, embora reflicta a dinâmica variegada e ruidosa de uma turma de meninos e meninas em estado de ebulição contínua, compreende a lentidão própria da existência rotineira e serena, feita de repetições e de regras (formais ou tácitas). E, na verdade, não há nesta dicotomia qualquer contradição: o senhor Tempo é, por natureza, um compósito de continuidade e variação, como amplamente já nos ensinaram Bergson ou Thomas Mann (entre outros sábios).
A noção de que o velho professor cumpre o seu último ano de profissão empresta a cada gesto e a cada frase um extraordinário peso simbólico. Convenhamos: o valor da existência humana tende a inflacionar-se perante a iminência do fim a haver. Explica o senhor Burel, a dado momento, que a reforma representa “o fim de uma viagem, de uma aventura, de uma paixão”.
Pelo meio, o professor viaja com os alunos até Paris, proporcionando-lhes a primeira viagem de metro, a primeira subida à Torre Eiffel, a primeira (quiçá única) entrada no parlamento. Os alunos ajudam-no a ver a Novidade com a virgindade própria do olhar primeiro – e, entre risos e frases descontínuas, garantem a utilidade desta visita de estudo, “pois serviu para aprendermos e para nos divertirmos” (cito de cor).
É ainda o velho instituteur a fazer as honras da casa, recebendo a colega que o substituirá e apresentando-a aos alunos. (Há aqui uma coincidência poética: a nova docente está grávida, como é próprio de uma metáfora sobre o porvir).
No final, a vila despede-se, numa festa muito familiar e singela, do professor Burel. Pela primeira vez, vemo-lo chorar, de olhar assustado e triste. E eu, que tenho esta eterna doença de sofrer excessivamente com a passagem das horas, e que ainda por cima sou um Monsieur Burel perdido por Trás-os-Montes, chorei também. Adeus, senhor professor. Até já.

Vila Real, 15-09-2017.
Joaquim Jorge Carvalho
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 21-09-2017. A foto foi colhida, com a devida vénia, no site da RTP.]